OS MEUS 15 DEZ MELHORES LIVROS DO ANO [MAIS DUAS INCOMENSURÁVEIS PORCARIAS

FINAL DE ANO encontramos as tais listas dos “dez mais” sobre tudo. Não consigo ter disciplina para restringir meus dez a dez, então acrescentei mais cinco para evitar injustiças. E não trato dos lançamentos de 2018, ainda que tenha um ou outro título fresquinho na lista. A ordem é a de leitura no decorrer do ano, e não uma valoração, bom avisar.
Para equilibrar a coisa ainda mais, no final coloco as “duas incomensuráveis porcarias”. Não que tenha lido apenas duas porcarias, mas essas duas em especial foram festejadas, incensadas e babadas.
Vamos à lista:
OS MELHORES:

01] STEVEN NAIFEH E GREGORY WHITE SMITH. Van Gogh – a vida [São Paulo: Companhia das Letras, 2014. Trad.: Denise Bottmann]

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02] JOHANN PETER ECKERMANN. Conversações com Goethe nos últimos anos de sua vida – 1823-1832 [São Paulo: Unesp, 2017. Trad.: Mario Luiz Fungillo]

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03] ROBERTO BOLAÑO. Putas assassinas [São Paulo: Companhia das Letras, . Trad.: Eduardo Brandão]

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04] MARY BEARD. SPQR, uma história da Roma antiga [São Paulo: Crítica, 2017. Trad.: Luis Reyes Gil]

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05] ANTON P. TCHÉKHOV. Cartas a Suvórin, 1889-1891 [São Paulo: Edusp, 2002. Trad.: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade]

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06] PHILIP ROTH. Pastoral Americana [São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Trad.: Rubens Figueiredo]

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07] ROBERT DARNTON. Censores em ação. Como os Estados influenciaram a literatura [São Paulo: Companhia das Letras, 2016. Trad.: Rubens Figueiredo]

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08] JEFF GUINN. Manson, a biografia [São Paulo: DarkSide, 2017. Trad.: Daniel Alves da Cruz et al. Equipe de tradutores identificada como “O Aprendiz Verde”]

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09] CORMAC MCCARTHY. Meridiano de sangue [Rio de Janeiro: Alfaguara, 2009. Trad.: Cássio de Arantes Leite]

M9_MERIDIANO

10] JOHN STEINBECK. A leste do Éden [São Paulo: Mérito, 1964. Trad.: José Geraldo Vieira]

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11] BRUNO BARRETTO GOMIDE. Dostoiévski na rua do Ouvidor. A literatura russa e o Estado Novo [São Paulo: Edusp, 2018]

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12] VASSILI GROSSMAN. Vida e destino [Rio de Janeiro: Alfaguara, 2014. Trad.: Irienu Franco Perpétuo]

M12_VIDADESTINO

13] EÇA DE QUEIRÓS. Os Maias [Rio de Janeiro: Zahar, 2017]

M13_OSMAIAS

14] TOM WOLFE. A fogueira das vaidades [Rio de Janeiro: Rocco Digital, 2018. Trad.: Lia Wyler]

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15] JAMES BALDWIN. Terra estranha [São Paulo: Companhia das Letras, 2018. Trad.: Rogério W. Galindo]

M15_TERRAESTRANHA

 

E AS DUAS INCOMENSURÁVEIS PORCARIAS:

01] JORDAN B. PETERSON. 12 regras para a vida. Um antídoto para o caos [Rio de Janeiro: Atlta Books, 2018. Trad.: Alberto G. Streicher e Wendy Campos]

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02] MARGARET ATWOOD. O conto da aia [Rio de Janeiro: Rocco, 2016. Trad.: Ana Deiró]

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SEXO, SEXO, SEXO: O ENSAIO DA MORTE

Freud, em Além do princípio de prazer, de 1920, explora os conceitos de Eros e Tanatos. Eros é a busca pelo prazer e a fuga da dor; é o instinto da sobrevivência do indivíduo e da sociedade; é o impulso que nos move, que Freud chama de “libido”. Tanatos seria o desejo inconsciente de morrer, fruto de algum trauma sério [como a guerra, p.ex.], mas em constante equilíbrio com Eros. Trocando em miúdos: Eros e Tanatos estão em equilíbrio no homem, e é a consciência da própria finitude que nos leva a procurar algum sentido. A libido funciona por diversos caminhos, não se restringindo apenas ao apelo sexual: ela é tudo aquilo que nos move em direção a uma satisfação, seja o próprio sexo, seja o trabalho, seja um vício, seja a fruição de uma obra de arte.

Heidegger, em Ser e tempo, também se preocupa com o homem enquanto um “ser-para-a-morte”, usando o conceito de Dasein, uma “existência” do ser em relação ao mundo, ou o homem inserido no mundo e sua história pessoal; Dasein é a síntese da consciência da finitude do homem. Heidegger diz ainda que Dasein é a compreensão do homem inserido no mundo, a busca incessante de autocompreensão no decorrer de sua vida. O que interessa é a relação de si mesmo com o mundo, com o Outro, o que leva, obrigatoriamente, à morte.

015_Roth_AnimalToda essa introdução me serve apenas para explorar um pouco esse livrinho de Philip Roth, O animal agonizante. Não se trata de um romance; talvez eu não o classificasse como novela, nem mesmo conto. Está mais para um ensaio a respeito da finitude da vida, do rompimento com todas as expectativas que nos são colocadas à nossa frente.

David Kapesch, personagem-narrador, é um professor de crítica cultural. Aparece na tevê local semanalmente por dez minutos, tem um breve programa de rádio e dá aulas na universidade para um pequeno grupo [25 alunos] por 14 semanas. O grupo é formado majoritariamente por mulheres [dezenove garotas e, dos rapazes, dois heterossexuais, afirma]. No momento em que ele conta sua história ao interlocutor [que descobriremos ser uma mulher apenas na última página], Kapesch tem 70 anos. Sua história, ou a parte importante de sua história, transcorre na década de 1990: o caso turbulento que tem com uma ex-aluna, Consuela, cubana. Até o momento em que encontra Colsuela, Kapesch tem inúmeros casos com suas alunas que, por sua vez, têm uma fixação pelo homem mais velho, uma espécie de ícone do saber. Ele sabe, porém, que este interesse das moças de 20 anos pelo velho de 60 não passa de uma curiosidade vinculada à figura paterna. Kapesch aproveita-se disso. Não tem ilusões a respeito de amor, paixão ou qualquer outro sentimento que não a pura atração sexual. Até que encontra a jovem e linda cubana – que descobre o poder do sexo e como esse poder manipula o sentimento masculino.

O enredo é banal. Nada mais comum do que as ânsias e angústias do sexo e do jogo de conquista. Nada mais banal do que o casamento desfeito de Kapesch, do fato de ele ter abandonado mulher e filho [com 40 anos no tempo da narrativa; foi abandonado aos oito] para viver “livre” no auge da revolução sexual dos anos 1960. Nada mais banal do que o conflito com o próprio filho, um homem inseguro que culpa o pai pelo seu próprio casamento em crise, ou as amizades, poucas, que cultiva. Por isso chamo este O animal agonizante de ensaio, ao invés de romance ou conto: a trama serve como uma desculpa [vamos botar aspas na palavra] para que o narrador discorra a respeito da condição de vida um homem velho que percebe, ao deparar-se com a juventude e beleza de sua amante, que está a caminho da morte.

A necessidade de volúpia, a sede de sexo e do jogo de conquista, a ideia de possuir a mulher – e trocá-la por outra e por outra e por outra, incessantemente – é a forma que Kapesch encontra de afastar-se de sua finitude. Enquanto existir um objetivo externo a si mesmo que substitua a sua consciência, ele poderá obnubilar a obviedade da vida: que ele é um ser-para-a-morte. O prazer extremo anula a consciência: é uma muleta, uma evasão como o álcool, as drogas ou o vício no trabalho. Tudo o que nos cerca, diz Roth / Kapesch, é essa constante fuga do fim e da autoconsciência.

Esta a filosofia do ensaio: qual o momento em que finalmente percebemos que estamos a caminho da morte? Para Kaspesch é a beleza de Consuela [e o ciúme que sente, ou o fato de querer reproduzir as ações dos namorados anteriores dela – apenas cinco –, como beber seu sangue menstrual, é sinal de sua desarticulação com a imagem que tem de si mesmo]; para o seu melhor amigo é o derrame que sofre aos 55 anos e faz com que agonize por meses [há uma das mais belas cenas sobre a busca do perdão: o doente, em um último esforço, beija apaixonadamente sua esposa, desprezada por anos, e tenta tirar sua roupa]; para o filho é a destruição do seu casamento; para Consuela é o câncer que a corrói e irá matá-la.

Todo o ensaio é sobre a morte e a incessante busca existencial [Dasein] de compreender nosso papel no mundo. Roth sempre retoma, em suas obras, ou pelo menos as de um determinado ciclo iniciado por Complexo de Portnoy, a ansiedade de existir e a fuga via sexo, às vezes beirando a, outras mergulhando na, perversão [no último caso temos O teatro de Sabbath]. É escapismo sempre.

As melhores páginas, no entanto, são aquelas que descrevem o início dessa ideia de liberdade sexual plena: a universidade da Revolução Sexual, o rompimento completo com a ideologia puritana e protestante americana, ela própria perversa e máscara para perversões mais profundas. Ali, no meio do turbilhão libertário, no auge da descoberta da pílula anticoncepcional, nos direitos conquistados pelas mulheres, na ousadia feminina em seduzir e não mais ser objeto de sedução, é que temos todo o mal-estar da civilização contemporânea: o hedonismo e a liberdade, no fim, não fizeram com que o Homem se tornasse mais completo ou mais consciente de si e de suas ações. Apenas fez com que ele olhasse para essas coisas marginais de sua existência como se elas que fossem importantes e essenciais. O que disso decorre é o espanto e a angústia.

Kapesch está morte, metaforicamente, assim como todos os que buscam a evasão estão mortos. O mal, no entanto, está feito: aquilo que antes era o sustentáculo do ser, a consciência de que vivemos não para nós mesmos, mas para o Outro, pautados nos valores mais tradicionais [família, comunidade, filhos], foi destruído. E, junto com esses valores, toda a Beleza, toda a Estética.

Eros perdeu o sentido. Resta-nos Tanatos.

PAUL AUSTER E GRAHAM GREENE ENCONTRAM-SE NO VIETNÃ

NÃO TENHO a menor paciência com Paul Auster, não adianta. Li Desvarios no Brooklin há uns dois anos, por aí, e tive ganas de arremessá-lo pela janela: parecia que Auster escrevia um panfleto Democrata respeitando as cotas para personagens representativas das tais minorias. Acabrunhei.

 

012_auster_trilogiaAí me disseram que Desvarios é fraco mesmo, o piorzinho de Auster, que eu devia ler outras coisas dele e tal. Comprei uns quatro ou cinco num sebo e deixei-os ali naquele canto, ó, e de vez em quando os encarava, desconfiado. O do topo da pilha era a Trilogia de Nova Iorque. Garantiram que esse, sim, era dos bons, talvez o mais importante livro dele, leia, leia que você vai gostar.
Anteontem peguei o livro, depois de ter terminado O americano tranquilo, de Greene. Greene me surpreende sempre – seu estilo, a concisão da narrativa, as personagens bem construídas, a dubiedade que permanece por todo o enredo, tudo exemplo de grande literatura.
A experiência com a leitura de O americano foi intensificada por013_greene_americano eu ter lido, nos dias anteriores, um livro-reportagem sobre o Vietnã, Despachos do front, de Michael Herr, ainda que o livro de Greene se passe no final dos anos 1950, com a guerra ainda nas mãos francesas, e o de Herr pega o fogo todo do napalm de 1968, já no período americano, nada tranquilo, diga-se. O interessante é como Greene desvenda o início da interferência americana numa guerra que não era sua, e a personagem-narrador, um repórter cínico, afirma que aquela será uma guerra perdida. A vida, enfim, é uma guerra perdida.
Talvez seja esse choque de sair de Greene e cair nas mãos de Auster que frutifique minha decepção. O negócio é que me arrasto cheio de fastio pelo romance.
014_despachosNão que “Cidade de vidro”, o primeiro livro da Trilogia, não tenha seu interesse: o jogo de duplicidades, ou máscaras, que a personagem principal usa [é escritor que parou de escrever, mas cria um pseudônimo para produzir novelas policiais, assume o nome de Paul Auster para tornar-se investigador particular]; há também uma ruptura de tempo e de espaço que, se fossem melhor exploradas, poderiam causar estranhamento e maior interesse [como Auster constrói essas rupturas, e mesmo o jogo de identidades das personagens, apenas deu-me a impressão de gratuidade, um recurso do pior do pior gênero de novela]. Até o suposto vilão tem um duplo. Tudo tem um duplo. Poderia gerar uma discussão aprofundada de viés filosófico, mas apenas percebo que o tema já foi explorado – e explorado de melhor maneira – por outros tantos escritores, Dostoiévski, Borges, Machado. Auster faz novelinha e simplifica demais.
O que Paul Auster escreve é um pastiche das narrativas policiais americanas hard-boyled, os romances noir de Hammett e Chandler. Claro, como pastiche, não é para ser levado a sério [a Trilogia não é hard-boyled], mas até mesmo um pastiche deve mostrar a que veio. A personagem principal, Quinn, é um imitador de um ator imitando Humphey Bogart atuando como Marlowe. É tão óbvio, tão raso, que não deixa nada para o leitor.
Pelo visto, deixarei os livros naquele outro canto ali, até que tome nova coragem de enfrentá-los. Quem sabe eu piore e comece a gostar de Paul Auster.

A TERRA É UMA TETA!

Há toda uma discussão a respeito do formato da Terra. A polêmica, escavada desde antes do tempo em que os gregos falavam, foi reacendida por um grupo de malucos esquizofrênicos entupidos de conservadorismo tacanho e mal digerido. Esses conservadores acreditam que estão à frente da mais avançada retaguarda do Saber, ou da mais atrasada vanguarda, vai saber.

eco_lendariosDe qualquer modo, a Terra não é plana! Isso é sabido desde 1498, e quem a definiu com toda a certeza, graças à sua prática de navegação inquestionável, foi Cristóvão Colombo, numa carta aos Reis Católicos de Espanha. O documento, que reproduzo abaixo, encontra-se no livro de Umberto Eco, História das Terras e Lugares Lendários, p. 175. Diz Cris:

“Sempre li que o mundo – terra e água – era esférico, e os autorizados testemunhos e as experiências de Ptolomeu e de todos os outros que escreveram sobre o assunto estabeleciam e demonstravam isso, tanto por meio das eclipses da Lua quanto por outras provas realizadas do Oriente para o Ocidente, como aquela da elevação do polo do norte para o sul. Mas vi agora tantas irregularidades, conforme disse, que fui induzido a formar uma outra ideia do mundo e concluí que ele não é redondo como o descrevem, mas tem a forma assemelhada de uma pera redondíssima em tudo, exceto, porém,  no ponto onde fica o cabo, que é o ponto mais elevado, ou de uma bola muito redonda na qual, num certo ponto, fosse colocado um mamilo de mulher, e este ponto é o mais alto e mais próximo do céu e está situado sob a linha equinocial e, neste Oceano, na extremidade do Oriente.”

É preciso ter peito para contestar Cristóvão Colombo.

 

 

LÁ DA COMPANHIA…

DEI UM PULO lá na Companhia das Letras. A vontade é de mandar embrulhar a loja toda, sabecumé. Mas, como não sou motorista da Famiglia, contentei-me com esses:

livros companhia
– T.S. Eliot, Poemas, em tradução de Caetano Galindo [que é o melhor tradutor de James Joyce, diga-se];

– a biografia de Raspútin, por Douglas Smith;

– Thomas Mann, O eleito, um dos mais brilhantes romances que já li; e

– James Baldwin, Terra estranha, autor de quem têm falado muito e recebido muitos elogios. Não sei qual o pito que toca.

Aqui do alto da goiabeira, juro que esses são os derradeiros de 2018.

A ÚLTIMA TEORIA LITERÁRIA

FILHADAPUTA!, assim mesmo, tudo junto, é o maior elogio que um escritor pode receber. O princípio, talvez, também sirva para atores, diretores de cinema e teatro, artistas plásticos, jogadores de futebol. Não sei.

escritores

[Antes que leitores ou correlatos denunciem a página por causa da porra desse palavra – e aproveito para citar Hilta Hilst, de memória: “Ficou chocado, leitor? porra é do tempo do onça” – peço que leiam até o fim].

É preciso esclarecer que este FILHADAPUTA! nada tem a ver com inveja. É pura admiração. O que é fato é a exigência de identificação. Não consigo soltar um FILHADAPUTA! legítimo quando assisto a uma peça, seja sobre o autor, ator ou diretor, nem sobre os passes de Neymar. Acho bonito, gosto ou não, nada mais. Logo, para soltar o elogio, deve haver alguma identidade, mínima que seja. “Filho de uma puta” invejoso é por extenso e murmurado entredentes. Gosto de literatura – falo sobre literatura.

A coisa acontece assim: você lê uma frase, um parágrafo, uma página – e está arrebatado. Dissolve-se. Entrega-se. Tua alma é elevada à plenitude por aquilo que leu. Mais: você percebe que queria, desejava, ter escrito um milésimo de centésimo de uma sílaba daquelas que fosse. Teus olhos se arregalam, a respiração suspende, chega mesmo a uma sudorese e um arrepio na barba [até as mulheres, nesse momento, têm arrepios na barba], e solta, admirado, o fatal FILHADAPUTA! tanto tempo em suspensão. Parte de um efeito físico que vem, no início, dum estrangulamento do diafragma, sobre pela garganta, vibra tensamente as cordas vocais, enche a boca invadindo até mesmo as papilas gustativas, assoma todo o aparelho fonético [a isso soma-se uma vertigem de prazer orgástico] e, boca cheia, vem, desce, toma, incorpora, oxum, o FILHADAPUTA! Experiência sem igual.

Soltei [e solto] o FILHADAPUTA! algumas vezes. Terminei de ler Ulysses e foram incontáveis FILHASDAPUTA! que, só na cena do enterro, logo no começo, rendeu bem uma boa dúzia e meia. Parei de contar depois de cem páginas. Tchékov é um FILHADAPUTA! daqueles, junto com Machado [o de Assis]. Flaubert, outro, não só em Madame Bovary [quase uma década de filhadaputagem para chegar ao romance], como também nos Três Contos; Dostoiévski merece grandes FILHADAPUTA!; Baudelaire é um completo FILHADAPUTA!; Dante vai ser FILHADAPUTA! assim no Inferno!; Borges me cega, de tão FILHADAPUTA! que é. E há aqueles autores que chegam a ser FILHASDAPUTA! em certos momentos. Mas fiquemos por aqui.

Meus leitores [alguns] sabem que defendi, tempos passados, uma tese sobre a Demanda do Santo Graal, novela medieva da qual gosto. Tantas e tantas páginas para estudá-la a partir dos FILHASDAPUTA! Agostinho, Tomás de Aquino e Rámon Llull. Mas a Demanda em si não entra na categoria. Não existe FILHADAPUTA! coletivo.

Muita coisa se produz em mestrados e doutorados sobre escritores dos mais variados. Quase nenhum merece o elogio [seriam desnecessárias as teses para substituir uma só expressão]. Claro, muito se escreveu sobre Joyce, um GRANDECÍSSIMOFILHADAPUTA! Por estas bandas, no entanto, se escreve muito sobre Mário de Andrade, que não cabe no conceito, e outros chatinhos, Jorge Amado incluso, nanicos frente ao FILHADAPUTA! Graciliano Ramos. A tese ideal e lógica teria duas páginas: a capa com o título [“Machado de Assis”, p.ex., simples assim], seguida por outra, única, com letras garrafais: “FILHADAPUTA!”. Desnecessária a bibliografia.

Mas – sempre o Mas – há uma grande escassez de FILHASDAPUTA! em nossa literatura contemporânea. Tudo, tudo, tudo anda tão chatinho e chinfrim…

COISAS DOS SEBOS

Esses dois Umberto Eco, Sobre a literatura e Quase a mesma coisa, valeram a viagenzinha até a praça Marechal Deodoro, aquele horror a cada dia mais decadente.

ecoeoutrosO Jérôme Caecopino, Roma no apogeu do Império, é do velho Círculo do Livro.

O Le Goff, O nascimento do Purgatório, que – finalmente! depois de dois meses de reclamações – chegou lá daquela porcaria da #Saraiva.

A coisa boa é que consegui os livros do Eco por um preço muito bacana, 30 contos cada. Não consigo atinar como uma edição brasileira, ainda que esgotada, posse chegar a R$ 200!

Não é um clássico, não é uma edição limitada, não é um livro especial: é apenas um livro, bom decerto, que teve uma tiragem alta [coisa de 5.000 exemplares] e que não foi reeditado. Livreiros às vezes acham que têm coisas muito especiais em mãos. Se fosse uma primeira edição italiana, com assinatura do autor, vá lá.

MAS É UMA FESTA, MEU!

QUE MARAVILHA, ÊH!, é sair à caça nos sebos da Paulistânia. No fuça-que-fuça o gajo acaba saindo-se bem. Um belíssimo resultado:

– ediçãozinha supimpa de Flaubert, A educação sentimental, da lusa Lello & Irmão;
– pequenina pérola de W. B. Yeats, livros_messiasantologia ilustrada, The last romantic, lá de Noviorque, Clarkson N. Potter;
– Bioy Casares, O sonho dos heróis, pela falecida Cosac Naify;
– uma edição mais antiga [1942], também lusa, da Livraria Clássica Editora A. M. Teixeira, desse A vida das abelhas, de Maurice [que por lá chamam “Maurício” mesmo] Maeterlinck;
– São João Paulo II com esse Cruzando o limiar da esperança;
– um clássico da tipografia, que compramos mais em homenagem a Joao Ulanin, que foi tipógrafo: Robert Bringhurst, Elementos do estilo tipográfico;
– uma joia escrita pela minha professora exemplar e orientadora Beatriz Berrini, O mundo de Eça de Queiroz, com fotografias de Paolo Cusenza;
– a biografia Sua Santidade João Paulo II e a história oculta de nosso tempo, por Carl Bernstein e Marco Politi;
– e a biografia Jorge Luis Borges, o homem no espelho do tempo, que não é a melhor, mas tem informações bastante boas.
Além disso, chegando em casa dou de cara com os livros da Carambaia, kit de sobrevivência literária: Kyra Kyralina, de Panaït Istrati, e Viagem ao Volga, de Ahmad Ibn Fadlan, Carambaia_hoje
e com esse O Mestre e a margarida, de Mikhail Bulgákov, edição nova da 34.
bulgakov
Uma festa! Uma festa!
Notem o bico do Frederico ali, xeretando. Um erudito, esse gato.

OS MAIAS: A ESTERELIDADE DE UMA NAÇÃO

Tenho uma história pessoal com Eça de Queirós. Primeiro, minha orientadora na PUC-SP foi Beatriz Berrini, talvez a maior especialista sobre Eça, com quem trabalhei com as correspondências no preparo de uma edição completa: Berrini descobrira mais algumas cartas do período de Paris que não constavam nas Obras Completas pela Nova Aguillar. Lembro de ela me contar que estava à caça de algumas outras desse mesmo período, que Eça teria escrito para uma amante inglesa: sabia com quem estavam, mas a família da moça não desejava abrir mão do material. Berrini morreu há dois anos. Creio que essas cartas continuem em algum baú, escondidas. Depois, em 2003, participei de um simpósio sobre o escritor. Lembro que a aula de abertura foi de Antonio Candido, uma beleza. Apresentei um pequeno trabalho não sobre Os Maias, mas sobre um então inédito, um esboço ainda, fragmentos de uma narrativa que seria maior: Eça retomava a história de Galaaz, da Demanda do Santo Graal, e o mostrava como um guerreiro medieval sem os fumos heroicos e religiosos: decepava cabeças e matava aos montes enquanto buscava o Graal.

maiasLi Os Maias antes dessas experiências, antes mesmo da minissérie da tevê Globo. Aliás, assisti à série, e é boa. Agora, remexendo nos livros da biblioteca e nos arquivos do computador, encontro essa edição. Resolvi folhear só para lembrar do sabor da prosa. Eça de Queirós é uma armadilha: se se ler a primeira página, engrena-se o livro até o fim. É delicioso o humor que encontramos, um humor ácido, às vezes brutal, as críticas, tão atuais e tão aplicáveis ao Brasil, que faz ao seu Portugal do século XIX.

O romance tem como tema aparente o incesto entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda. A história é conhecida: Carlos e Maria, netos do patriarca Afonso da Maia, são separados ainda na infância, quando sua mãe foge com o amante italiano e o pai suicida-se. Aqui já há toda a teoria do naturalismo: o Homem como fruto do meio, da História e da hereditariedade, desenvolvida por Hypolitte Taine. A degradação moral da mãe e a fragilidade do pai levam obrigatoriamente ao encontro dos irmãos, frutos dessa mesma degradação moral. Mas esse é o aspecto aparente. O incesto, aqui, não me parece ser o tema central ou, pelo menos, não o foco de interesse do romance: é uma desculpa para a análise da sociedade portuguesa da época.

Explico-me: n’Os Maias é retratada uma classe social abastada formada por herdeiros. O círculo íntimo de Carlos Eduardo todo é composto por pessoas improdutivas que vivem no fausto das festas e dos encontros sociais: são visitas aos amigos durante as tardes, são festas nos palacetes à noite, são encontros nos teatros, são jantares nos hotéis. O próprio Carlos é movido pelo diletantismo: escolhe estudar medicina movido por uma ideia de “ser útil” para a sociedade; o que faz é montar um consultório luxuoso onde nunca entra um paciente; constroi um laboratório de pesquisas farmacêuticas com o que há de mais moderno na ciência, igualmente luxuoso, onde nenhum tipo de pesquisa é sequer iniciado; tem uma grande obra em andamento, História da medicina antiga e moderna, que rascunha, anota, burila o estilo, mas nunca leva ao cabo. A certa altura do romance, ao ser questionado pelo amoroso e tolerante avô a respeito do andamento da obra, e escutar que o estilo deve ser “direto e simples, como convém a um livro desses”, replica: “Nós portugueses somos assim, desejamos o luxo da forma, a sonoridade da palavra, o rebuscar do palavras”, em detrimento ao conteúdo propriamente dito; é o discurso das aparências, tão comuns a nós aqui no Brasil.

O que importa é parecer ser, e não ser. O jogo de aparências é levado a todos os âmbitos da vida, inclusive a escolha das parceiras sexuais. Como é um grupo social bastante restrito, essas relações ocorrem entre homens e mulheres muito próximos: João da Ega, amigo de infância de Carlos e também diletante, tem um caso com a esposa do banqueiro judeu e futuro ministro; quando esse relacionamento termina [o escândalo social previsto, já que todos sabiam do caso, e entende-se que o marido igualmente o sabia, mas essas coisas apenas não podem ser divulgadas às escâncaras], a mulher imediatamente arruma outro amante, do mesmo círculo. Carlos também tem suas amantes; Dâmaso, que inveja Carlos e o imita em tudo, é um alpinista social que deseja as amantes dos outros, a caricatura dessa classe.

Maria Eduarda, por sua vez, criada em Paris por uma mãe que se prostitui para manter a classe à qual deseja pertencer, é levada a buscar proteção com um amante brasileiro, que se descarta dela assim que sabe de seu relacionamento com Carlos. Eles não sabem que são irmãos, coisa que irá se revelar tardiamente por esses acasos que sustentam a literatura. A relação incestuosa parece-me a síntese das relações sociais: Portugal, ou o Portugal “chique”, “civilizado”, lisboeta e culto, é formado por essas famílias tradicionais que herdam as terras de seus antepassados desde os tempos de dom Afonso Henriques, vivendo fartamente graças ao fruto de suas terras e ao trabalho dos outros, mas produzindo cada vez menos e com interesse cada vez menor com a sua própria realidade e com a manutenção de seu país. Não por acaso que as personagens, Carlos e Maria inclusos, fogem para Paris na primeira crise pessoal. É uma classe que não enfrenta nenhum desafio, não resolve nenhum problema, fica à espera de herdar as fortunas dos pais [o caso de João da Ega, p.ex.] enquanto adquirem dívidas na vida lisboeta.

O que desejam, na verdade, é um poder que lhes garanta a admiração dos outros, com o menor trabalho possível: não por acaso que o desejo de muitos é entrar na política, preferencialmente não por eleições mas por indicações a cargos junto à corte. Ser secretário, assessor ou ministro não tem a função de promover progresso social, mas apenas de garantir a vida luxuosa das aparências.

São apenas alguns comentários sobre o que a releitura de Os Maias me despertou, sem a intenção de análise literária em profundidade. O romance é de 1888. 130 anos nos separam. Mas o que é descrito ali é a nossa realidade pura aqui no Brasil. As relações de nossa elite são incestuosas e infrutíferas. Se não há uma consanguinidade propriamente dita, há uma consanguinidade moral que conspurca toda e qualquer possibilidade de desenvolvimento e justiça.

MNEMÓSINA E O PORTÃO

Neide terminou o café, arrumou-se, pegou o carro, xingou o Paiva que ainda não consertara o portão, foi ao shopping, estacionou no terceiro piso, percorreu as lojas, comprou duas blusas, uma calça, uma saia, meias, um perfume, aquele xampú novo, esmaltes, umas bijuterias, namorou aquela bolsa cara, acabou comprando uma bolsa mais barata senão o Paiva me mata, um par de sapatos e um cinto  combinando, afinal a bolsa não é tudo isso, almoçou, viu a programação do cinema, não gostou, comprou quatro dvds que  não irá assistir, uma boneca para a Mônica, achando que a Mônica ainda tinha sete anos, uma camiseta do São Paulo para o Felipe, sem ligar que Felipe torcia para o Palmeiras e nem gostava de futebol, saiu do shopping, chamou um táxi e foi para casa.

 

portão quebradoViu o portão aberto e cadê o bendito carro? O Paiva, ah meu Deus o Paiva que nunca conserta esse maldito portão, entrou fula na casa, jogou as compras no sofá, pegou o telefone e descascou o abacaxi com o Paiva, porra Paiva olha só o que você me faz roubaram o carro só porque você não tem a porra da coragem de mandar consertar esse maldito portão onde eu estava com a cabeça quando casei com você e bateu o telefone. Não adiantou nada, ainda estava irritada, ligou para a irmã Filomena, desceu o cacete no Paiva, depois para a Lurdinha, olha só que desgraça, Lurdinha, roubaram meu carro de dentro da garagem, o portão o Paiva etc., ligou para a tia Berenice mas ninguém atendeu, logo agora que precisava tanto falar com a tia Berenice.
Foi à delegacia, fez o B.O., horas perdidas, o Paiva nunca que iria fazer uma coisa dessas, nunca assume nada, o desgraçado, chegou em casa, já era tarde para ligar para a seguradora, fica para amanhã,  Mônica pendurada ao telefone, Felipe no videogame no quarto, oi mãe oi mãe, e olha só quem chega, o Paiva, o preguiçoso do Paiva, o folgado do Paiva, o inconsequente do Paiva, o omisso do Paiva!
Paiva dormiu no quarto de hóspedes, Neide mal dormiu, fervilhando.
Na manhã seguinte não falou com o Paiva, o Paiva com aquela cara lambida de culpa, quem sabe agora conserta o maldito portão, precisa acontecer uma desgraça, Mônica e Felipe de uniforme da escola, tchau mãe tchau mãe, o Paiva, finalmente!, saiu para o trabalho. Ligou para a tia Berenice.
Você não sabe o que me aconteceu, tia Berenice, roubaram meu carro de dentro da garagem, tudo culpa do Paiva que não conserta o maldito portão, deve ser gente aqui da rua, uma rua tão tranquila, não passa ninguém, ficaram de olho, sabiam que o portão que o Paiva não conserta está quebrado, e ficaram à espreita, à espreita!, só esperando eu sair para ir ao shopping e
Estancou. O shopping!
Bateu o telefone sem se despedir, chamou um táxi, rápido para o shopping moço, e lá estava o carro no terceiro piso, pagou o estacionamento, uma pequena fortuna, tomara que o Paiva não verifique a fatura do cartão, saiu dirigindo lentamente pela avenida e agora?
A cabeça um turbilhão. Como encarar o Paiva, o que dizer para o Paiva, falar que a polícia encontrou o carro em algum favelão, não não cola, confessar que esquecera o carro no estacionamento era impossível depois de ontem, ah meu Deus me ajude, roubaram o carro, afinal roubaram o carro, não era verdade?, tinha até o B.O. comprovando e tudo, ela podia deixar o carro em algum lugar, mas onde, não perto do shopping, quem iria abandonar um carro roubado de dentro do shopping atrás do shopping, ladrão leva o carro para longe ou para aquele bairro lá, naquela favela lá, ai meu Senhor, que perigo ir até lá, mas como encarar o Paiva, o Paiva não perdoa, ia contar para todo mundo, para a Mônica e para o Felipe no jantar, para a irmã Filomena, para a Lurdinha, para a tia Berenice, minha vida vai virar um inferno, entrou no bairro, olhando desconfiada os casebres, devagar devagar, o botequim na esquina, vou deixar o carro ali mais para a frente. Então escutou a sirene.
O chato, o humilhante, foi telefonar para o Paiva da delegacia.