SEXO, SEXO, SEXO: O ENSAIO DA MORTE

Freud, em Além do princípio de prazer, de 1920, explora os conceitos de Eros e Tanatos. Eros é a busca pelo prazer e a fuga da dor; é o instinto da sobrevivência do indivíduo e da sociedade; é o impulso que nos move, que Freud chama de “libido”. Tanatos seria o desejo inconsciente de morrer, fruto de algum trauma sério [como a guerra, p.ex.], mas em constante equilíbrio com Eros. Trocando em miúdos: Eros e Tanatos estão em equilíbrio no homem, e é a consciência da própria finitude que nos leva a procurar algum sentido. A libido funciona por diversos caminhos, não se restringindo apenas ao apelo sexual: ela é tudo aquilo que nos move em direção a uma satisfação, seja o próprio sexo, seja o trabalho, seja um vício, seja a fruição de uma obra de arte.

Heidegger, em Ser e tempo, também se preocupa com o homem enquanto um “ser-para-a-morte”, usando o conceito de Dasein, uma “existência” do ser em relação ao mundo, ou o homem inserido no mundo e sua história pessoal; Dasein é a síntese da consciência da finitude do homem. Heidegger diz ainda que Dasein é a compreensão do homem inserido no mundo, a busca incessante de autocompreensão no decorrer de sua vida. O que interessa é a relação de si mesmo com o mundo, com o Outro, o que leva, obrigatoriamente, à morte.

015_Roth_AnimalToda essa introdução me serve apenas para explorar um pouco esse livrinho de Philip Roth, O animal agonizante. Não se trata de um romance; talvez eu não o classificasse como novela, nem mesmo conto. Está mais para um ensaio a respeito da finitude da vida, do rompimento com todas as expectativas que nos são colocadas à nossa frente.

David Kapesch, personagem-narrador, é um professor de crítica cultural. Aparece na tevê local semanalmente por dez minutos, tem um breve programa de rádio e dá aulas na universidade para um pequeno grupo [25 alunos] por 14 semanas. O grupo é formado majoritariamente por mulheres [dezenove garotas e, dos rapazes, dois heterossexuais, afirma]. No momento em que ele conta sua história ao interlocutor [que descobriremos ser uma mulher apenas na última página], Kapesch tem 70 anos. Sua história, ou a parte importante de sua história, transcorre na década de 1990: o caso turbulento que tem com uma ex-aluna, Consuela, cubana. Até o momento em que encontra Colsuela, Kapesch tem inúmeros casos com suas alunas que, por sua vez, têm uma fixação pelo homem mais velho, uma espécie de ícone do saber. Ele sabe, porém, que este interesse das moças de 20 anos pelo velho de 60 não passa de uma curiosidade vinculada à figura paterna. Kapesch aproveita-se disso. Não tem ilusões a respeito de amor, paixão ou qualquer outro sentimento que não a pura atração sexual. Até que encontra a jovem e linda cubana – que descobre o poder do sexo e como esse poder manipula o sentimento masculino.

O enredo é banal. Nada mais comum do que as ânsias e angústias do sexo e do jogo de conquista. Nada mais banal do que o casamento desfeito de Kapesch, do fato de ele ter abandonado mulher e filho [com 40 anos no tempo da narrativa; foi abandonado aos oito] para viver “livre” no auge da revolução sexual dos anos 1960. Nada mais banal do que o conflito com o próprio filho, um homem inseguro que culpa o pai pelo seu próprio casamento em crise, ou as amizades, poucas, que cultiva. Por isso chamo este O animal agonizante de ensaio, ao invés de romance ou conto: a trama serve como uma desculpa [vamos botar aspas na palavra] para que o narrador discorra a respeito da condição de vida um homem velho que percebe, ao deparar-se com a juventude e beleza de sua amante, que está a caminho da morte.

A necessidade de volúpia, a sede de sexo e do jogo de conquista, a ideia de possuir a mulher – e trocá-la por outra e por outra e por outra, incessantemente – é a forma que Kapesch encontra de afastar-se de sua finitude. Enquanto existir um objetivo externo a si mesmo que substitua a sua consciência, ele poderá obnubilar a obviedade da vida: que ele é um ser-para-a-morte. O prazer extremo anula a consciência: é uma muleta, uma evasão como o álcool, as drogas ou o vício no trabalho. Tudo o que nos cerca, diz Roth / Kapesch, é essa constante fuga do fim e da autoconsciência.

Esta a filosofia do ensaio: qual o momento em que finalmente percebemos que estamos a caminho da morte? Para Kaspesch é a beleza de Consuela [e o ciúme que sente, ou o fato de querer reproduzir as ações dos namorados anteriores dela – apenas cinco –, como beber seu sangue menstrual, é sinal de sua desarticulação com a imagem que tem de si mesmo]; para o seu melhor amigo é o derrame que sofre aos 55 anos e faz com que agonize por meses [há uma das mais belas cenas sobre a busca do perdão: o doente, em um último esforço, beija apaixonadamente sua esposa, desprezada por anos, e tenta tirar sua roupa]; para o filho é a destruição do seu casamento; para Consuela é o câncer que a corrói e irá matá-la.

Todo o ensaio é sobre a morte e a incessante busca existencial [Dasein] de compreender nosso papel no mundo. Roth sempre retoma, em suas obras, ou pelo menos as de um determinado ciclo iniciado por Complexo de Portnoy, a ansiedade de existir e a fuga via sexo, às vezes beirando a, outras mergulhando na, perversão [no último caso temos O teatro de Sabbath]. É escapismo sempre.

As melhores páginas, no entanto, são aquelas que descrevem o início dessa ideia de liberdade sexual plena: a universidade da Revolução Sexual, o rompimento completo com a ideologia puritana e protestante americana, ela própria perversa e máscara para perversões mais profundas. Ali, no meio do turbilhão libertário, no auge da descoberta da pílula anticoncepcional, nos direitos conquistados pelas mulheres, na ousadia feminina em seduzir e não mais ser objeto de sedução, é que temos todo o mal-estar da civilização contemporânea: o hedonismo e a liberdade, no fim, não fizeram com que o Homem se tornasse mais completo ou mais consciente de si e de suas ações. Apenas fez com que ele olhasse para essas coisas marginais de sua existência como se elas que fossem importantes e essenciais. O que disso decorre é o espanto e a angústia.

Kapesch está morte, metaforicamente, assim como todos os que buscam a evasão estão mortos. O mal, no entanto, está feito: aquilo que antes era o sustentáculo do ser, a consciência de que vivemos não para nós mesmos, mas para o Outro, pautados nos valores mais tradicionais [família, comunidade, filhos], foi destruído. E, junto com esses valores, toda a Beleza, toda a Estética.

Eros perdeu o sentido. Resta-nos Tanatos.

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2 comentários em “SEXO, SEXO, SEXO: O ENSAIO DA MORTE

  1. Vi falar bem de Philip Roth. Comprei 3 livros dele – Indignação, O Animal Agonizante …o outro não lembro o nome tenho que procurar no meio da bagunça. Porém, ainda não li nenhum deles. Você gosta dele ?

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