ANTIPATIAS: JORDAN PETERSON

SOFRO DE UMA ANTIPATIA entranhada com autores que se dirigem diretamente ao leitor. Não digo na literatura – Machado faz isso e é sublime -, mas em filosofia ou humanidades. Sempre me cheira a autoajuda, e confesso que acho autoajuda, qualquer autoajuda, insuportável e uma armadilha para tolos.

peterson_3Funciona bem na fala, numa aula, num papo. Atrai o ouvinte ou o aluno ou o interlocutor. Jordan Peterson faz isso muito bem em seus vídeos e entrevistas, funciona que é uma beleza. Mas pegue as 12 regras para a vida. Rapaz! Por mais interessante que seja o conteúdo, o recurso de dirigir-se ao leitor o transforma numa babaquice sem tamanho. Aliás, 12 regras foi uma das piores coisas que já li. Tive vontade de fazer uma crítica marxista: “Esse não é um livro para ser deixado displicentemente de lado, mas para ser arremessado longe, com toda a força”, que é marxismo facção Grouxo, a única que presta.

 

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Agora vi que laçaram Mapas do significado: a arquitetura da crença. Dizem que é o grande livro de Peterson. Interessei. O livro é caro.

Gato escaldado etc., então antes de comprar o bicho resolvi procurar capítulos em PDF, vamos dar uma olhada, não no Sumário [que é interessante], mas no estilo, o estilo é tudo, e ali, logo no primeiro capítulo dou com um

“Imagine uma garotinha”

e agora estou com a Cássia Eller na cabeça e não tem quem tire.

Não compro, pronto.

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BOLSONARO: CANDIDATO A TIRANO

ESTOU LENDO “Como as democracias morrem”, de Steven Levisky e Daniel Ziblatt. É um muito bom livro. Vi gentes torcendo o nariz, acusando os autores de comunistas e tal, o de sempre. Uma bobagem, claro: analisam ditaduras à destra e à canhota, mas como ousam criticar Trump, já viu.

democraciasA certa altura, Levistky e Ziblatt fornecem quatro pontos para se identificar um candidato a tirano:

1] negar a legitimidade dos opositores, tratando-os como inimigos [qualquer um que faça oposição ou critique o governo Bolsonaro ganha imediatamente um rótulo: “comunista” e “petista” são os mais corriqueiros];

2] rejeitar ou ter compromisso débil com as regras democráticas [alguém lembra daquele papo de urnas fraudadas?];

3] enxergar na imprensa um inimigo [“A Globo é inimiga” são palaras textuais do excelentíssimo Presidente da República];

4] encorajamento da violência [a família Bolsonaro é amiga de milicianos, além de todo o discurso preconceituoso contra quaisquer “minorias”].

Esses quatro consigo identificar em Bolsonaro sem nenhum esforço.

Mas o que me chamou a atenção foi um quinto ponto.

O candidato a tirano elogia líderes, nacionais ou internacionais, do presente ou do passado, que são claramente criminosos.

Bolsonaro, além de elogiar Ulstra, um torturador, agora elogiou Strossner, ditador do Paraguai. Strossner estuprava meninas de dez anos, sequestradas de suas famílias, a quatro por mês.

Bolsonaro cumpre com todos os requisitos para um tirano. Junte-se a isso a estupidez, a falta de traquejo político, a esquipe mal preparada, a influência de um psudo-filósofo como Olavo de Carvalho, e estamos feitos.

FULTON SHEEN, O COMUNISMO E A DEBILIDADE OCIDENTAL

LOGO NA SEGUNDA página do Prefácio deste Vida de Cristo, Fulton Sheen escreve uma das mais belas e fortes passagens que já li, e que cabe como uma luva feita sob medida para as brigas políticas a que temos assistido hoje, brigas que fazem católicos perderem seu catolicismo em nome da política. Os seguintes parágrafos sintetizam tudo o que estamos vendo no comportamento dos ditos “católicos conservadores tradicionalistas” [os itálicos são meus]:

FULTON SHEEN“Odiar o pecado, amar pecadores; condenar o comunismo, amar os comunistasrejeitar a heresia e amar os heréticos; receber os errados de volta no tesouro de Seu coração, mas jamais o erro no tesouro de Sua sabedoria; perdoar pecadores a quem a sociedade já condenou, mas ser intolerante com aqueles que pecaram e não foram descobertos; Ele reservou sua explosões mais acerbas para aqueles que eram pecadores e negavam o pecado, que eram culpados e diziam ter apenas um complexo. Então, aquele que chora em silêncio na presença do pranto humano e de um sepulcro aberto deu passagem a explosões irrestritas de luto, conforme Ele contemplava a morte e a derrocada daqueles que têm um câncer moral e se recusam a usar o remédio que Ele comprou com um preço mais alto do que o sangue de touros e bodes.
O mundo moderno nega a culpa pessoal e admite apenas os crimes sociais, não há lugar para o arrependimento pessoal, mas apenas para reformas públicas, Cristo foi separado de Sua cruz; o noivo e a noiva foram apartados. O que Deus uniu, os homens separaram. Como resultado, à esquerda está a cruz; à direita, o Cristo. Cada um tem esperado novos parceiros que os tomará num tipo de segunda união adúltera. Surge o comunismo e toma a cruz sem significado; a civilização ocidental pós-cristã escolhe o Cristo incólume.
O comunismo escolheu a cruz no sentido de que trouxe de volta a um mundo egoísta um senso de disciplina, abnegação, rendição, trabalho duro, estudo e dedicação a objetivos supraindividuais. Mas a cruz sem Cristo é sacrifício sem amor. Consequentemente, o comunismo produziu uma sociedade autoritária, cruel, opressora da liberdade humana, repleta de campos de concentração, pelotões de extermínio e lavagens cerebrais.
A civilização ocidental pós-cristã tomou o Cristo sem a cruz. Mas um Cristo sem um sacrifício que reconcilia o mundo com Deus é um pregador itinerante barato, feminizado, sem cor, que merece ser popular por Seu grande Sermão da Montanha, mas também merece a impopularidade pelo que disse sobre Sua divindade, de um lado, e sobre divórcio, juízo e inferno do outro. Este Cristo sentimental é um mosaico de milhares de lugares-comuns, sustentados às vezes por etimologistas acadêmicos incapazes de ver a Palavra pelas letras, ou distorcido além do reconhecimento pessoal por um princípio dogmático de que algo que é Divino deve ser necessariamente um mito. Sem cruz, Ele não se torna nada senão um precursor provocante da democracia ou um humanista que ensinava a fraternidade sem lágrimas.
O problema agora é: será que a cruz, que o comunismo tomou em suas mãos, encontrará o Cristo antes que o Cristo sentimental do mundo ocidental encontre a cruz? É nossa convicção que a Rússia encontrará o Cristo antes que o mundo ocidental reúna Cristo com sua cruz redentora.”
O livro é de 1958, no fogo mais quente da Guerra Fria. Duas observações: uma, que os tais conservadores conseguirem recriar o clima da Guerra Fria, recusando-se a perceber que ela está encerrada, morta e sepultada. Duas, o último parágrafo me parece uma profecia.

JULIO! JULIO! JULIO! CORTÁZAR!

JULIO CORTÁZAR é, talvez, ao lado de Tchekhov e Machado, meu escritor favorito. Tenho lido mais Cortázar ultimamente, emendei o segundo volume das Cartas [ainda não terminei] com Os autonautas da cosmopista e agora essa entrevista A fascinação das palavras.

cortazar fascinacaoA fascinação é um livro dolorido. São entrevistas que Cortázar deu ao jornalista uruguaio Omar Prego Gadea. Começou em 1982 e a série [não havia um projeto, apesar de o livro já estar comprado por uma editora, nas palavras de Cortázar: “quero um livro muito louco”] terminou em 1984 com a morte do escritor. Pode parecer uma coisa besta, e é, mas logo na introdução de Gadea senti uma fisgada de tristeza quando contou seu último encontro no quarto do hospital. Dali dois dias, Cortázar estava morto [seu derradeiro desejo era o de chegar em casa e comer um “bife desse tamanho”] e o sentimento de perda que Gadea sentiu foi transferido para mim, como se eu tivesse conhecido Cortázar e batido longos papos e rido de seus cronópios, ele próprio um incomensurável cronópio
[eu sou um cronopiozinho, um candidato a cronópio, um semi-cronópio, um pseudo-cronópio, impossível chegar ao Cronópio que foi Cortázar]
, de modo que iniciei a leitura meio de luto, ainda que em 1984 eu não fizesse a mínima ideia de quem era Cortázar.
Abstenho-me de resenhar o livro. Apenas digo que é bom. Diferente de outras entrevistas e livros semi-memoriais [Os autonautas da cosmopista incluso, de 1982; Cortázar trabalhava nesse livro quando sua esposa Dunlop morreu, mais uma dor], prenhes de alegria e humor, A fascinação tem um tom tristonho, de abandono, de resgates de um passado, de tentativas de se compreender. Há trechos que são verdadeiras profissões-de-fé de um Escritor, mas a maior parte traz essa melancolia de quem está morrendo aos poucos, lentamente, sendo devorado por um câncer, mas ainda com aquela esperança estática e inerte, como toda Esperança, aliás.
Cortázar nos conta de onde vieram as ideias de seus contos, o processo de criação do Jogo da amarelinha, as fantasias e senhor que viveu, seu engajamento político por Cuba e Nicarágua sandinista, tudo tudo tudo. Mas há uma historieta de Cortázar jovem, antes de ser o Escritor, antes de seu refúgio em Paris [depois exílio autoimposto; por fim exílio obrigatório graças aos milicos argentinos], antes de ser tradutor da Unesco, uma historieta que me chamou a atenção por ser cândida, doce, e terrivelmente real. Diz Cortázar:
“Eu fui realmente tradutor público em Buenos Aires, onde tive um escritório, e traduzi para as prostitutas do porto as cartas que seus marinheiros enviavam de diferentes lugares do mundo. Tinha que traduzir do inglês para o espanhol e depois responder em inglês à pessoa em questão. Como explico no conto [“Diário para um evento”], foi o meu sócio que me deixou isso de herança e eu continuei por pena, porque aquelas garotas eram totalmente indefesas em matéria epistolar e em matéria idiomática.
“Esse foi um episódio da minha vida em Buenos Aires que sempre me pareceu curioso, fora do comum, E também é verdade, absolutamente verdade, que numa correspondência dessas fiquei sabendo de um crime. Houve uma mulher que desapareceu envenenada. Eu, naturalmente, por via das dúvidas, não perguntei detalhes e me limitei a realizar o meu trabalho, mas mantive sempre a preocupação de ter sido testemunha epistolar de um episódio muito confuso entre as pessoas desse clima, desse ambiente.”
De resto, apenas uma sugestão aos meus leitores: leiam TODO Cortázar. Não saltem uma página sequer. Vão desde os contos e poemas e cheguem aos romances. Se por acaso encontrarem um rol de roupas para a lavanderia que ele tenha escrito, leia também e o trate como literatura. Como Alta Literatura. Vão por mim: vale cada palavra.

ANUNCIAÇÃO

Spiritu sanctus superveniet in te, et virtus Altissimi obumbrabit tibi.

Ideoque et quod nascetur ex te sanctum, vocabitur Fillius Dei. (Lucas, I: 35)[*]

 

Ajoelhas-te em contrição, bendita
entre as mulheres, pois eu trago a nova
da parte de Deus, de quem acredita

que fere e mata, mas também renova
e acalanta tua alma ferida:
és jovem para desceres à cova,

destino fatal, jornada da vida,
e para te entregares ao homem
que te acompanharás nesta lida.

ANUNCIACAOEntregas-te antes aos que te acolhem
ou à voz que, presente, anuncia
o futuro que os homens escolhem

e negam: o aceitar ou a renúncia;
cabe a eles no amanhã esperado…
A ti não resta mais que a paciência

de aguardar o destino renovado
que irás gerar, contra a tua vontade,
obedecendo ao plano anunciado:

parindo da carne a tua metade
(já que o corpo não se faz em um dia)
para o retorno final da verdade…

De ti, pois, virá a luz que irradia
para se cumprir o que estava escrito:
aquarum apellavit ­— Maria!

 

 

Humilde és, de coração contrito,
para aceitares do Pai o desejo
de amor fecundo, calor irrestrito

pela humanidade, com sobejo,
para trazer a vida renovada
no momento supremo do ensejo…

Permanecerás no tempo calada,
pois a sombra sempre anda à espreita;
e partirás na terra desolada

pelo caminho da angústia desfeita.
A espera do homem se mantém
àquela que sua carne rejeita

e ele contigo partirá, também,
para o deserto sombrio e solitário
rumo à cidade indicada: Belém.

Ali enfrentarás todo um sudário
entre da súplica e do parto as dores
por um futuro — o sabes temerário —,

que te acompanhará por onde fores
(por vezes as alegrias das bênçãos;
por outras, toda aflição e os horrores)

para que todo e qualquer Homem vença
o mal primeiro ao qual foi atirado
e à terra, pacífico, então desça

e, por teu fruto, seja enfim elevado,
comprado, pelo sangue, do teu ventre,
de teu Filho, por todos derramado.

Permanecerás no assombro, entre
a certeza da escolha e aquela fria
dúvida no coração. Não te centres

ou na pura lembrança deste dia
ou na chama, atroz, que te devora
e te faz melancólica na alegria:

ora baixas os olhos como quem ora,
estrangulada a lágrima no peito,
ora ergues os punhos e imploras.

Desconheces do Senhor todo o jeito
ao lidar com a Sua criatura:
logo d’Ele, por quem tudo foi feito,

ardes em desejos de ruptura!
Em tua juventude não entendes
que trazes em ti Sua miniatura

cujo poder pelo mundo estendes
ainda que sem a plena consciência:
da vontade soberana te defendes

para não te entregares à ardência
que te consome e, chama, irradia,
mas que negas apenas por prudência…

Mal sabes como Ele te movia
ainda antes de saberes existir
à espera de que chegasse o dia

que então com Ele irias dividir
a origem plena do ser perfeito
e, com tua carne, nele imbuir

a essência que o faria sujeito
capaz de caminhar pela Terra
e corrigir, nela, todo o defeito…

Não chores. Pois é breve quem erra
e se espelha na obediência tua…
Clame, sofra, peça, entre em guerra

para anular a dor da carne nua
e atingir limites sempiternos
(sobre as águas o Espírito flutua)

face a face com o olhar doce, terno,
frente ao qual a angústia se desfaça
como diante de tudo o que é eterno…

Este o fruto de tua Santa Graça.

_____________________

[*] Lucas I:35: “O anjo respondeu: “O Espírito Santo descerá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer será chamado santo, Filho de Deus”.

[Imagem: Joe Speybrouck, The Annunciation, 1928]

 

BOLSONARO: O ELOGIO DA MEDIOCRIDADE

TEM AQUELA FOTO do Presidente esculhambado. Presidente esculhambado já me é ofensivo. Um mínimo de decoro, um mínimo de bom-senso. Por falta de decoro e bom-senso, sapatos, calças e camisa já estavam bem. Mas.

Mas não é disso que quero falar. A equipe posa na frente de um painel de Di Cavalcanti. Nem vou entrar no detalhe que Di Cavalcanti é muito bom e tal, basta conhecer um poucochinho de arte e, se não conhecer, ler aqui e ali alguma coisa.

di cavalcantiO problema são os comentários que li por aqui: que são “rabiscos”, que toda “arte moderna é um lixo”, que a dona do painel “está coçando a precheca” [!]. Claro que teve aquela do sobrinho de três anos e do macaco-pintor.

A visão estética dos conserva tapuia está abaixo do nível da mediocridade. Acham que arte é aquela coisa acadêmica, quase uma fotografia, uma reprodução da realidade, como se Michelângelo fosse apenas um reprodutor da realidade.

Lembrem o Davi. Causou escândalo exatamente por romper completamente com as expectativas que se tinha em relação à personagem bíblica Davi: um rapazote magrelo, pequetitico, quase subnutrido, o último e menos adequado para ser o Rei de Israel, um pastorzinho que a própria família não levava muito a sério.

Aí chega Michelângelo e esculpe um homenzarrão fortudo, grandalhão, quase um gigante, físico definido e tal, completamente o oposto daquele Davi bíblico. O povo estrilou. Dizem que a ira com a representação heterodoxa foi tal que tentaram destruir a estátua. Pois é.

Arte, no fim, é isso: a visão de um indivíduo sobre a realidade, um modo de não apenas representá-la, mas de interferir na forma COMO enxergamos as coisas. Podemos até não gostar disso e daquilo, opiniões pessoais existem, mas, p.ex., por menos que eu goste de Frida Khalo, e não gosto, reconheço que ela criou uma forma de usar as formas e cores toda dela e, autocentrada ou não, ideologicamente comprometida ou não, atinge uma percepção estética [que envolve toda a Cultura mexicana, “sou um homem e minhas circunstâncias”, para lembrar Ortega y Gasset] significativa. O que fazem com Khalo como bandeira é outra história.

De modo que as opiniões das gentes conservadoras sobre Di Cavalcanti dizem mais respeito à própria mentalidade superficial, rasa e esteticamente infantil do que à obra do pintor.

Não por acaso votaram em Bolsonaro, cuja percepção e representação estéticas são essa coisa esculhambada e desarmônica. Bolsonaro é aquela pixação ruim que polui a paisagem e significa menos que nada. Tal qual a percepção de seus defensores.

20:37.4

É, IRMÃO, diz Alberto Souza enquanto procura a estação de música clássica no rádio. Está com 63 anos e gosta de música clássica [alguém disse, um cliente?, erudita, mas não entendeu, aliás, meu irmão, que se foda], acalma, e, para ele, significa respeito aos seus passageiros que leva de tão longe às vezes, nada dessas coisas barulhentas, não, comigo transitonão, sabe?, essa é a melhor parte, a vida sempre é complicada, até que você não sofreu, pelo que dizem, pelo que vejo, pelo que sei, como sei?, ah! mais de dez anos aqui nesse volante, levando vocês, esperando vocês, só faltava levar na cama, aquela, risos, eu rio, mas… até que o trabalho não é ruim, mas tem cada coisa que a gente vê, dá até tristeza, sabe?, outro dia tinha uma dona, coitada, aquela sofreu barbaridade, diz Alberto Souza, parado no trânsito, a descida para o centro está uma coisa, vamos pegar a 9 de Julho, e aí quem sabe, vai demorar, mas o senhor não tem pressa, né?, ri, eu rio mas com respeito, as pessoas vivem correndo e aí tem um dia, uma hora, que tudo isso, toda essa correria perde o sentido, imagino o que o senhor deve pensar agora, porque, porque, é eu sei, essa música está boa, eu me preocupo com meus clientes, dá um pouco de sentido para a vida, e o senhor pensa o que estava fazendo ali no balcão do bar, eu penso, eles dizem, parou só para um café e um salgado, já era tarde, perdeu o almoço, né, eu sei, muito trabalho, essa a vida, a gente nem percebe, continua Alberto, nem nota o que acontece à nossa volta, aposto que o senhor nem olhou em volta antes de atender o celular, mas o que faço ali no balcão do bar?, esperando ou fechar um negócio, ou  um cliente, ou era a mulher, o senhor é casado, vi a aliança, mas não se preocupe, tudo bem, tudo bem, sempre fica bem, todos os meus clientes ficam bem, mais cedo ou mais tarde, entende, até eu um dia vou ficar bem, não se preocupe com o trânsito, eles esperam, o som está alto? E Alberto Souza conversa, fala, tranquiliza o sujeito deitado ali atrás, um tiro no peito, cara!, dez anos dirigindo esse rabecão, mas gosta de música erudita?