O tema dos últimos dias foi a encenação do ex-secretário da Cultura, Roberto Alvim, onde ele faz uma imitação de Goebbels, usando trechos do seu discurso, incrementado pelo cenário, pelo gestual, pelo tom de fala, pela trilha sonora. Tudo foi pensado como um espetáculo. Não vou, aqui, repetir tudo o que falei a respeito: que é apologia ao nazismo, que foi feito de caso pensado, que imaginar uma estética nacionalista, heroica, que busque os “mitos fundadores” é um resgate do que há de mais abjeto em uma civilização. Tudo isso é claro e quem tiver um mínimo de bom-senso percebe o horror que foi aquilo. Nem pretendo levar esse problema às demais esferas do Governo Federal – já afirmei, mais de uma vez, que o que o senhor Alvim disse e fez está em pleno acordo com tudo o que o Presidente da República sempre declarou, sem tentar esconder. O que pretendo é outra coisa, mais séria e grave, que não atinge apenas o ex-secretário e equipe do governo, mas um número considerável de pessoas, ingênuas, que buscam a sensação de pertencimento a algum grupo.
No entanto, minha curiosidade foi despertada por causa daquela encenação. Alvim é homem de teatro e como tal sabe usar os recursos cênicos. Constuiu uma personagem a partir da figura histórica de Goebbels e, para isso, teve de se debruçar, pelo menos por algum tempo, sobre o que temos de seu registro: fotografias, vídeos, áudios. Não apenas a palavra escrita que forma o discurso, afinal de contas, mas todo o contexto. É o método de estudo que visa fazer com que o ator se torne aquela personagem, viva como aquela personagem, movimente-se como aquela personagem, fale como aquela personagem. É um mergulho psicológico na persona à qual pretende dar vida para que ela seja verossímil no palco e, assim, cative a plateia que, por sua vez, está lá exatamente para ser convencida da realidade da encenação. Essa a essência do Método Stanilavski, descrita e defendida em detalhes no seu livro A construção da personagem [minha edição é a da Civilização Brasileira, 1970]. Funciona, e gerações e gerações de atores e atrizes usaram e usam o método, com maior ou menor sucesso.
Deve-se atentar que o Método prevê uma peça de teatro, isto é, um determinado objeto estético que tem como característica uma duração limitada com um objetivo definido. Stanislavski deixa isso claro em seu livro: o ator se prepara sabendo que a peça iniciará em tal horário e dali a uma ou duas horas estará encerrada, de modo que aquela persona tem vida apenas nesse breve intervalo de tempo e naquele espaço limitado do palco, com seus adereços – cenário, roupas, música, penteados, maquiagem etc. Depois disso o ator, a atriz, volta à banalidade de sua vida, sem nunca misturar as realidades. O bom ator, a boa atriz. Stanislavski restringe seu método a esse objetivo específico e vê um problema sério, e grave, se for retirado do âmbito teatral e posto em prática na vida cotidiana.
Alvim é homem de teatro. Como tal, conhece a coisa e sabe usá-la. Até aí, nenhum problema [e ressalto, mais uma vez, que não estou analisando o vídeo e seu conteúdo]. O problema é outro, mais sério e profundo, que atinge não apenas o pobre ex-secretário e ator frustrado. Atinge muito mais gente.
Lembrei que alguém, não lembro quem [memória falha, essa minha], que foi aluno de Olavo de Carvalho e caiu fora do grupo rapidinho, ao perceber a armadilha na qual se metera, que ele, Olavo, defendia o uso do Método Stanislavski para argumentar ou refutar determinado opositor. À época não dei muita bola para a questão. Não me pareceu coisa grave, nem séria: era, até então, um método, mais um, apropriado pelo Guru a fim de melhor convencer seus alunos a não abandoná-lo e, quem sabe, arrebanhar mais alguns seguidores. Com o vídeo de Alvim, alguma coisa me pegou mais fundo, de modo que resolvi pesquisar a relação entre Olavo de Carvalho e o Método Stanislavski.
Encontrei de cara [bendito Google] esse artigo de 16 de julho de 2007, publicado no Dário do Comércio, e reproduzido em seu site oficial, com o título “Quando a alma é pequena”.
Toda a primeira parte do artigo é a velha tentativa de desqualificar todo e qualquer discurso dos intelectuais brasileiros. Faz uma lista de seus “erros”, citando literalmente Schopenhauer e sua Dialética erística, livro que o próprio Olavo de Carvalho preparou e comentou em 1997, e que veio a lume pela Topbooks [Olavo assina a tradução, em conjnto com Daniela Caldas; não há informação alguma no livro se a tradução foi feita do orginal alemão ou se de alguma outra língua; darei de barato que, em 1997, Olavo soubesse alemão ou qualquer outra língua para se aventurar numa tradução; mas isso não importa].
A parte final do artigo continua com sua cantilena rancorosa contra os intelectuais brasileiros, agora centrado na literatura, diminuindo-a. Não reproduzo aqui as bobagens que diz, pois não é de interesse imediato. Interessa-me um parágrafo, ali no meio do artigo, que trata exatamente do Método Stanilavski. Cito:
“O método Stanislavski ensina-nos a técnica da identificação psicológica profunda com os vários personagens, de modo que o conflito dramático da peça seja interiorizado como conflito psicológico na alma do próprio ator. Uso isso até hoje para entender as idéias mais absurdas e perceber nelas, senão um fundo de razão, ao menos um princípio de verossimilhança. Isso tornou-se para mim tão rotineiro e natural que não me atrevo a contestar uma idéia se antes não a tornei minha ao menos por alguns minutos, de modo que falo sempre com a autoridade segura de quem está discutindo consigo mesmo. Por isso é que me parece tão espantosa e deplorável a atitude espontânea e obstinada de incompreensão defensiva que em geral é a atitude dos nossos debatedores públicos. Todo mundo tem direito a ter opiniões, mas é melhor tê-las depois de um mergulho aristotélico-stanislavskiano no mar das contradições. Quem quer que tenha amor à verdade anseia por esse mergulho, mesmo quando não tem a certeza de encontrar alguma verdade no fundo. A fuga generalizada ante esse desafio é o traço mais geral e constante dos “formadores de opinião” no Brasil. Em última análise, esse fenômeno expressa o medo de viver, o desejo de fugir logo para um mundinho imaginário imune a riscos intelectuais.”
A primeira oração define corretamente o que pretendia Stanislavski. O problema começa na oração seguinte, quando Olavo afirma que usa esse método até “hoje para entender as ideias mais absurdas” a fim de encontrar nelas algum “fundo de razão” ou “verossimilhança”. Piora: “não me atrevo a contestar uma idéia se antes não a tornei minha ao menos por alguns minutos”.
Olavo de Carvalho comete dois erros metodológicos que seriam facilmente evitados, caso conhecesse um pouco de metodologia científica. Um deles é que a “interiorização” do objeto, de forma plena, não garante absolutamente a compreensão do quê, afinal de contas, o autor em análise pretendeu dizer. Escritores, filósofos, jornalistas dizem aquilo que está escrito, nem mais nem menos, o que vale, inclusive, ao senhor Olavo de Carvalho. Qualquer pessoa traz consigo toda uma carga formativa que lhe é particular e, de algum modo, filtra a forma como ela enxergará os dados que se lhe apresentam. Não há escapatória. Lembro que é impossível você analisar um objeto qualquer transformando-se naquele objeto, isto é, eu, se leio e analiso um texto medieval, por exemplo, não tenho como fazê-lo como um homem medieval. Lembro do conto de Borges, “Pierre Menard, autor do Quixote”. Menard escreve, no século XX, o Quixote letra a letra, vírgula a vírgula, exatamente igual ao original de Cervantes; ainda assim, é outro Quixote que tem a ver com aquele do século XVI apenas a trama e as personagens – para Borges, reescrever o Quixote, ou qualquer outra coisa, em nosso tempo, obrigatoriamente traz consigo todas as referências que temos e conhecemos sobre a obra original. É impossível ler Cervantes sendo Cervantes. Apenas Cervantes podia ler seu livro como Cervantes.
Assim, não é possível apropriar-se de uma ideia e torná-la pessoal, tal e qual o Autor original pretendeu. Ao se ler um texto qualquer, lemo-lo com toda a carga de nosso universo de conhecimento, construído passo a passo, dia a dia, desde a nossa infância, relativo a todos os grupos sociais aos quais pertencemos ou pelos quais passamos em um momento ou outro. São as referências que imprimem sentidos e significados, às vezes acertados, outras vezes deturpados, àquilo que observamos. O esforço de se interpretar um Autor exatamente como esse Autor é impossível. O Aristóteles, para usar um autor citado no texto de Olavo, não é mais, nem é possível que seja, o Aristóteles do século IV a.C., mas sim o Aristóteles que nos chega com toda a carga dos comentaristas árabes e cristãos e ateus que sejam, assim como, para situá-lo melhor num momento histórico específico na tentativa de compreendê-lo com mais propriedade, usamos todas as referências de historiadores que tratam, sob pontos-de-vista diferentes, a Grécia do seu tempo. Notem bem: o que lemos sobre a Grécia de Aristóteles não é a Grécia de Aristóteles. Isso significa que Mortimer Adler, um dos autores-referência de Olavo de Carvalho, quando prega, em seu Como ler livros [publicado nos anos 1960 pela Agir e reeditado mais recentemente pela É Realizaçoes], que se leia um determinado autor de forma “pura”, sem nenhuma outra influência externa, é de uma bobagem sem tamanho.
O segundo erro, mais grave não pelo exercício que Olavo faz, mas pelo resultado que ele atinge, é essa tentativa, cuja impossibilidade já foi demonstrada no parágrafo anterior, de “tornar a ideia minha” nem que seja por alguns poucos instantes, pois só assim seria possível contestá-la. Vai além: “de modo que falo sempre com a autoridade segura de quem está discutindo consigo mesmo”. Nota-se aqui uma espécie de discurso egocêntrico e autofágico que se retroalimenta constantemente e, com isso, gera a impressão de autoridade. Como é impossível ser Outro, temos aqui o problema central do método de Olavo [não o de Stanislavski]: a cisão da personalidade, a discussão aparente entre um Eu existente e um Outro obrigatóriamente imaginário, o que gera uma distorção da realidade, da apreensão e da compreensão do objeto estudado. Um estudioso sério, um professor verdadeiro, sabe que o distanciamento do objeto é que lhe garante melhor conhecimento ao seu respeito. Desse modo se escrevem as teses sérias, com esse método se desenvolvem pesquisas efetivas. Sem isso, caímos no reino da opinião, opinião que, aliás, Olavo de Carvalho critica em todo o seu artigo.
Tenho a impressão que Olavo de Carvalho sabe do erro que comete: “Todo mundo tem direito a ter opiniões, mas é melhor tê-las depois de um mergulho aristotélico-stanislavskiano no mar das contradições. Quem quer que tenha amor à verdade anseia por esse mergulho, mesmo quando não tem a certeza de encontrar alguma verdade no fundo” [grifos meus]. Não sei o que seja esse “mergulho aristotélico-stanislavskiano”. A mim me sabe uma estrovenga retórica qualquer, criada para impressionar maus leitores. Mas o trecho vale como uma confissão: o que Olavo escreve é opinião e não passa de opinião, ainda que force a mão para colocá-la como verdade, cujo fundamento maior é apenas um mergulho numa realidade criada em sua mente, ao acreditar que consegue enxergar as coisas a partir do ponto-de-vista de um Outro qualquer. A última oração do parágrafo vale como assinatura da confissão: “Em última análise, esse fenômeno expressa o medo de viver, o desejo de fugir logo para um mundinho imaginário imune a riscos intelectuais”. Atribui aos “formadores de opinião” o erro básico que o prórpio Olavo comete.
Seria bom pararmos por aqui, mas ainda há algumas coisas a serem ditas, e, diz o bom método, devemos retomar aquilo com o que iniciamos nosso raciocínio. O ex-secretário Alvim é apenas mais uma vítima desse método que fragmenta a personalidade, quando aplicado não aos palcos, mas à vida. Uma personagem é, afinal, coisa efêmera que vive duas horas; um homem não consegue viver cotidianamente mudando-se de persona em persona a fim de compreender o mundo que o cerca sem que sua identidade não sofra um rompimento fatal. Tentar ser Outro, desejar viver como Outro, é doença psiquiátrica. Não há grande diferença, no fim e ao cabo, entre o sujeito barbado que acredita ser mulher e o pobre infeliz sem preparo intelectual que acredita ser autoridade em qualquer assunto: a cisão da realidade se dá em sua mente de tal modo que ele passa a agir e se comportar como um habitante de um mundo onde todos os outros que o cercam são alienígenas, já que não conseguem enxergar a Grande Verdade que ele detém.
Fosse apenas isso, teríamos um problema [grave, é verdade], mas de cunho muito pessoal, a ser lidado apenas pelos familiares da vítima desse método. Sei de primeira mão de vários casos de ex-alunos de Olavo que brigaram com família e amigos e namorados[as] por causa dessa cisão de sua personalidade. Mas, fosse isso, teríamos apenas um problema: o garoto, coitadinho, tão burrinho que se acha um gênio etc. Um dia toma-se um choque de realidade e torna-se a viver na normalidade das coisas.
Apenas que essa tentativa de viver como Outro para encontrar os erros de argumentação gera uma paranoia sem fim. Salta-se de um argumento a outro, num constante malabarismo, apenas para se demonstrar que se tem razão, e não para se construir um Saber efetivo. Daí a constante contradição em que caem Olavo de Carvalho e seus discípulos, ora afirmando uma coisa, ora afirmando outra diametralmente oposta, sem que eles enxerguem o problema no qual estão metidos. Decorre desse comportamento uma distorção tal dos fatos da realidade que o que vale para eles não é a realidade em si, mas o que, como discurso, eles vêm como realidade. Apenas que as suas interpretações mudam ao sabor da vontade de Olavo de Carvalho. Ou melhor seria usar a maiúscula: a Vontade de Olavo de Carvalho. Se há alguma contradição, se alguém encontra a disparidade entre as afirmações, o erro não é, não pode ser, do Professor, mas do pobre leitor mal formado [ou mal intencionado, como gostam de afirmar] que ou não atina com essa suprema sabedoria ou não assistiu a todas as aulas do COF, portanto é incapaz logo de início de tecer qualquer crítica séria.
Notem bem: esse é o método de fabricar malucos que Olavo criou e tem funcionado. Seus alunos tentam se colocar, inclusive, no papel do próprio Olavo de Carvalho, imitando seus trejeitos, usando seus “argumentos”, apropriando-se de seus slogans, de seus hábitos. Chega-se a tal ponto que uma crítica ao pensamento de Olavo é tomado como ataque pessoal – e nota-se que é pessoal não a Olavo, mas como se o próprio aluno tivesse sofrido um ataque. A fragmentação da personalidade chega a tal ponto que nada existe fora desse grupinho formado por centenas de olavinhos fumantes que disparam palavrões a torto e a direito, citando de orelhada uma série de filósofos lidos apenas sob a óptica do Mestre [uma contradição metodológica, afinal de contas: admiram Adler que prega ler uma obra sem interferência externa, mas só conseguem admitir qualquer “verdade” se for a partir do filtro de Olavo; mais um resultado desse desfazimento da personalidade].
É terrível, absolutamente terrível o que vejo acontecer com muitos desses jovens. A anulação de sua personalidade, a obstrução de sua inteligência, a redução de sua capacidade intelectual – em nome de uma aparência, de uma personagem criada não para ser vivida por uma ou duas horas, mas por meses e anos. Com o passar do tempo, essa personalidade se sobressai e toma o lugar da outra, da verdadeira [o que me lembra o conto “O espelho”, de Machado de Assis, mas não vou citá-lo]. Tudo em nome de um orgulho, tudo para alimentar o sentido de pertencimento, para que seu ego seja afagado. E, depois, talvez tarde demais, o sujeito viva como Stanislavski retrata no capítulo “Para uma ética do teatro”:
“Estando sempre sob o olhar do público, exibindo sua melhor aparência, quer o ator, quer a atriz, ovacionado, recebendo louvores extravagantes, lendo críticas entusiasmadas – todas essas coisas e muitas outras da mesma ordem constituem tentações incalculáveis. Essas tentações criam no ator o sentido da voracidade por uma constante e ininterrupta excitação de sua vaidade pessoal. Mas se ele viver apenas desses estímulos e de outros do mesmo gênero, estará destinado a rebaixar-se e tornar-se banal. Uma pessoa séria não pode se interessar muito tempo por esse tipo de vida, mas as pessoas superficiais ficam fascinadas, degradam-se e são destruídas por ele. É por isto que no mundo do teatro temos de aprender a controlar-nos muito bem. Temos de viver sob rígida disciplina.”
Substituamos “ator” por “candidato a filósofo” e “mundo do teatro” por “mundo do COF” e teremos o retrato escrito do Mal que é feito a essas pessoas. Não por acaso o senhor Alvim veio a público com justificativas sequenciais para ver se aplacava a impressão negativa [obviamente negativa] que seu teatrinho causou: de repente, a personalidade Alvim veio à tona e lhe lançou alguma luz. Não muita, já que a última desculpa foi a ação de forças demoníacas. Não tanta, a ponto de sentir-se mais incomodado com a crítica que Olavo de Carvalho lhe fez do que com a abjeção que promoveu. O que falamos aqui sobre Alvim aplica-se a todo e qualquer seguidor de Olavo de Carvalho.
Funciona bem na fala, numa aula, num papo. Atrai o ouvinte ou o aluno ou o interlocutor. Jordan Peterson faz isso muito bem em seus vídeos e entrevistas, funciona que é uma beleza. Mas
A certa altura, Levistky e Ziblatt fornecem quatro pontos para se identificar um candidato a tirano:
“Odiar o pecado, amar pecadores; condenar o comunismo, amar os comunistas; rejeitar a heresia e amar os heréticos; receber os errados de volta no tesouro de Seu coração, mas jamais o erro no tesouro de Sua sabedoria; perdoar pecadores a quem a sociedade já condenou, mas ser intolerante com aqueles que pecaram e não foram descobertos; Ele reservou sua explosões mais acerbas para aqueles que eram pecadores e negavam o pecado, que eram culpados e diziam ter apenas um complexo. Então, aquele que chora em silêncio na presença do pranto humano e de um sepulcro aberto deu passagem a explosões irrestritas de luto, conforme Ele contemplava a morte e a derrocada daqueles que têm um câncer moral e se recusam a usar o remédio que Ele comprou com um preço mais alto do que o sangue de touros e bodes.
A fascinação é um livro dolorido. São entrevistas que Cortázar deu ao jornalista uruguaio Omar Prego Gadea. Começou em 1982 e a série [não havia um projeto, apesar de o livro já estar comprado por uma editora, nas palavras de Cortázar: “quero um livro muito louco”] terminou em 1984 com a morte do escritor. Pode parecer uma coisa besta, e é, mas logo na introdução de Gadea senti uma fisgada de tristeza quando contou seu último encontro no quarto do hospital. Dali dois dias, Cortázar estava morto [seu derradeiro desejo era o de chegar em casa e comer um “bife desse tamanho”] e o sentimento de perda que Gadea sentiu foi transferido para mim, como se eu tivesse conhecido Cortázar e batido longos papos e rido de seus cronópios, ele próprio um incomensurável cronópio
Entregas-te antes aos que te acolhem
O problema são os comentários que li por aqui: que são “rabiscos”, que toda “arte moderna é um lixo”, que a dona do painel “está coçando a precheca” [!]. Claro que teve aquela do sobrinho de três anos e do macaco-pintor.
não, sabe?, essa é a melhor parte, a vida sempre é complicada, até que você não sofreu, pelo que dizem, pelo que vejo, pelo que sei, como sei?, ah! mais de dez anos aqui nesse volante, levando vocês, esperando vocês, só faltava levar na cama, aquela, risos, eu rio, mas… até que o trabalho não é ruim, mas tem cada coisa que a gente vê, dá até tristeza, sabe?, outro dia tinha uma dona, coitada, aquela sofreu barbaridade, diz Alberto Souza, parado no trânsito, a descida para o centro está uma coisa, vamos pegar a 9 de Julho, e aí quem sabe, vai demorar, mas o senhor não tem pressa, né?, ri, eu rio mas com respeito, as pessoas vivem correndo e aí tem um dia, uma hora, que tudo isso, toda essa correria perde o sentido, imagino o que o senhor deve pensar agora, porque, porque, é eu sei, essa música está boa, eu me preocupo com meus clientes, dá um pouco de sentido para a vida, e o senhor pensa o que estava fazendo ali no balcão do bar, eu penso, eles dizem, parou só para um café e um salgado, já era tarde, perdeu o almoço, né, eu sei, muito trabalho, essa a vida, a gente nem percebe, continua Alberto, nem nota o que acontece à nossa volta, aposto que o senhor nem olhou em volta antes de atender o celular, mas o que faço ali no balcão do bar?, esperando ou fechar um negócio, ou um cliente, ou era a mulher, o senhor é casado, vi a aliança, mas não se preocupe, tudo bem, tudo bem, sempre fica bem, todos os meus clientes ficam bem, mais cedo ou mais tarde, entende, até eu um dia vou ficar bem, não se preocupe com o trânsito, eles esperam, o som está alto? E Alberto Souza conversa, fala, tranquiliza o sujeito deitado ali atrás, um tiro no peito, cara!, dez anos dirigindo esse rabecão, mas gosta de música erudita?
