BOLSONARO: O ELOGIO DA MEDIOCRIDADE

TEM AQUELA FOTO do Presidente esculhambado. Presidente esculhambado já me é ofensivo. Um mínimo de decoro, um mínimo de bom-senso. Por falta de decoro e bom-senso, sapatos, calças e camisa já estavam bem. Mas.

Mas não é disso que quero falar. A equipe posa na frente de um painel de Di Cavalcanti. Nem vou entrar no detalhe que Di Cavalcanti é muito bom e tal, basta conhecer um poucochinho de arte e, se não conhecer, ler aqui e ali alguma coisa.

di cavalcantiO problema são os comentários que li por aqui: que são “rabiscos”, que toda “arte moderna é um lixo”, que a dona do painel “está coçando a precheca” [!]. Claro que teve aquela do sobrinho de três anos e do macaco-pintor.

A visão estética dos conserva tapuia está abaixo do nível da mediocridade. Acham que arte é aquela coisa acadêmica, quase uma fotografia, uma reprodução da realidade, como se Michelângelo fosse apenas um reprodutor da realidade.

Lembrem o Davi. Causou escândalo exatamente por romper completamente com as expectativas que se tinha em relação à personagem bíblica Davi: um rapazote magrelo, pequetitico, quase subnutrido, o último e menos adequado para ser o Rei de Israel, um pastorzinho que a própria família não levava muito a sério.

Aí chega Michelângelo e esculpe um homenzarrão fortudo, grandalhão, quase um gigante, físico definido e tal, completamente o oposto daquele Davi bíblico. O povo estrilou. Dizem que a ira com a representação heterodoxa foi tal que tentaram destruir a estátua. Pois é.

Arte, no fim, é isso: a visão de um indivíduo sobre a realidade, um modo de não apenas representá-la, mas de interferir na forma COMO enxergamos as coisas. Podemos até não gostar disso e daquilo, opiniões pessoais existem, mas, p.ex., por menos que eu goste de Frida Khalo, e não gosto, reconheço que ela criou uma forma de usar as formas e cores toda dela e, autocentrada ou não, ideologicamente comprometida ou não, atinge uma percepção estética [que envolve toda a Cultura mexicana, “sou um homem e minhas circunstâncias”, para lembrar Ortega y Gasset] significativa. O que fazem com Khalo como bandeira é outra história.

De modo que as opiniões das gentes conservadoras sobre Di Cavalcanti dizem mais respeito à própria mentalidade superficial, rasa e esteticamente infantil do que à obra do pintor.

Não por acaso votaram em Bolsonaro, cuja percepção e representação estéticas são essa coisa esculhambada e desarmônica. Bolsonaro é aquela pixação ruim que polui a paisagem e significa menos que nada. Tal qual a percepção de seus defensores.

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