JULIO! JULIO! JULIO! CORTÁZAR!

JULIO CORTÁZAR é, talvez, ao lado de Tchekhov e Machado, meu escritor favorito. Tenho lido mais Cortázar ultimamente, emendei o segundo volume das Cartas [ainda não terminei] com Os autonautas da cosmopista e agora essa entrevista A fascinação das palavras.

cortazar fascinacaoA fascinação é um livro dolorido. São entrevistas que Cortázar deu ao jornalista uruguaio Omar Prego Gadea. Começou em 1982 e a série [não havia um projeto, apesar de o livro já estar comprado por uma editora, nas palavras de Cortázar: “quero um livro muito louco”] terminou em 1984 com a morte do escritor. Pode parecer uma coisa besta, e é, mas logo na introdução de Gadea senti uma fisgada de tristeza quando contou seu último encontro no quarto do hospital. Dali dois dias, Cortázar estava morto [seu derradeiro desejo era o de chegar em casa e comer um “bife desse tamanho”] e o sentimento de perda que Gadea sentiu foi transferido para mim, como se eu tivesse conhecido Cortázar e batido longos papos e rido de seus cronópios, ele próprio um incomensurável cronópio
[eu sou um cronopiozinho, um candidato a cronópio, um semi-cronópio, um pseudo-cronópio, impossível chegar ao Cronópio que foi Cortázar]
, de modo que iniciei a leitura meio de luto, ainda que em 1984 eu não fizesse a mínima ideia de quem era Cortázar.
Abstenho-me de resenhar o livro. Apenas digo que é bom. Diferente de outras entrevistas e livros semi-memoriais [Os autonautas da cosmopista incluso, de 1982; Cortázar trabalhava nesse livro quando sua esposa Dunlop morreu, mais uma dor], prenhes de alegria e humor, A fascinação tem um tom tristonho, de abandono, de resgates de um passado, de tentativas de se compreender. Há trechos que são verdadeiras profissões-de-fé de um Escritor, mas a maior parte traz essa melancolia de quem está morrendo aos poucos, lentamente, sendo devorado por um câncer, mas ainda com aquela esperança estática e inerte, como toda Esperança, aliás.
Cortázar nos conta de onde vieram as ideias de seus contos, o processo de criação do Jogo da amarelinha, as fantasias e senhor que viveu, seu engajamento político por Cuba e Nicarágua sandinista, tudo tudo tudo. Mas há uma historieta de Cortázar jovem, antes de ser o Escritor, antes de seu refúgio em Paris [depois exílio autoimposto; por fim exílio obrigatório graças aos milicos argentinos], antes de ser tradutor da Unesco, uma historieta que me chamou a atenção por ser cândida, doce, e terrivelmente real. Diz Cortázar:
“Eu fui realmente tradutor público em Buenos Aires, onde tive um escritório, e traduzi para as prostitutas do porto as cartas que seus marinheiros enviavam de diferentes lugares do mundo. Tinha que traduzir do inglês para o espanhol e depois responder em inglês à pessoa em questão. Como explico no conto [“Diário para um evento”], foi o meu sócio que me deixou isso de herança e eu continuei por pena, porque aquelas garotas eram totalmente indefesas em matéria epistolar e em matéria idiomática.
“Esse foi um episódio da minha vida em Buenos Aires que sempre me pareceu curioso, fora do comum, E também é verdade, absolutamente verdade, que numa correspondência dessas fiquei sabendo de um crime. Houve uma mulher que desapareceu envenenada. Eu, naturalmente, por via das dúvidas, não perguntei detalhes e me limitei a realizar o meu trabalho, mas mantive sempre a preocupação de ter sido testemunha epistolar de um episódio muito confuso entre as pessoas desse clima, desse ambiente.”
De resto, apenas uma sugestão aos meus leitores: leiam TODO Cortázar. Não saltem uma página sequer. Vão desde os contos e poemas e cheguem aos romances. Se por acaso encontrarem um rol de roupas para a lavanderia que ele tenha escrito, leia também e o trate como literatura. Como Alta Literatura. Vão por mim: vale cada palavra.
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