OCTÁVIO PAZ, SÓROR JUANA INÉS DE LA CRUZ E A LEITURA

Dois trechinhos dessa maravilha que é Sóror Juana Inés de la Cruz, as armadilhas da fé [pp. 124-127], sobre a leitura, sua prática e a busca que é ser um leitor. Octávio Paz é simplesmente magnifico. Mais não digo, fiquem com suas palavras

OCTAVIO PAZ

“O mundos dos livros é composto de eleitos no qual os obstáculos materiais e as contingências cotidianas se afinam até evaporarem quase que totalmente. A verdadeira realidade, dizem os livros, são as ideias e as palavras que lhes dão significado: a realidade é a linguagem. Joana Inés [de la Cruz] habita a casa da linguagem. Essa casa não está povoada por homens e mulheres, mas por umas criaturas mais reais e consistentes que todas as realidades e todos os seres de carne e osso: as ideias. A casa das ideias é estável, segura, sólida. Nesse mundo cambiante e feroz, existe um lugar inexpugnável: a biblioteca.” [124-125]

E, mais adiante:

“O leitor põe entre parênteses sua consciência e se interna num mundo desconhecido. Vai em busca de si mesmo? Na verdade, vai em busca do lugar do qual foi arrancado. Toda leitura, até a que termina num desacordo ou num bocejo, começa como uma tentativa de reconciliação. Por mais ávido de novidades que esteja o leitor, o que ele procura originalmente é o reconhecimento, o lugar de origem.

A leitura é uma metáfora dupla. Num de seus extremos, reproduz a situação infantil original: a escritura é o leite mágico com o qual pretendemos dissipar a separação entre o sujeito e o objeto. No outro extremo, abre diante de nós uma antiga e complexa analogia. Desde o princípio do princípio o homem viu no céu estrelado um corpo vivo regado por rios de leite luminoso e ígneo; a essa visão, que faz do cosmo um imenso corpo feminino, junta-se outra: as estrelas e as constelações assossiam-se e combinam-se no espaço celeste e assim traçam figuras, signos e formas. O leite primordial transforma-se num vocabulário, o céu estrelado numa linguagem. O leite estelar é destino e as figuras que desenham os astros são as de nossa história. O leite é vida e conhecimento. Velha como a astrologia, essa metáfora tem marcado a nossa civilização: signum é sinal celeste, constelação; também é sina – destino. Os signos são sinais e as frases que escrevem as estrelas são a história dos homens: os signos estelares são o leite que tomamos no peito quando crianças e ele contém tudo o que somos e seremos.
Ler o céu ou seu duplo, a página: beber o leite estelar não é desfazer o nó de nosso destino, mas um remédio contra a nossa condição; a leitura das estrelas não dá a liberdade, mas o conhecimento.” [126-127]
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