OS DEUSES ME DIVERTEM

UMBERCO ECO descreve, em seu Apocalípticos e integrados, de 1968, os três níveis de cultura: high browmiddle brow e low brow, alta, média e baixa culturas, a fim de analisar as artes de seu tempo. A década dos 1960 é a da explosão da TV e a consequente disseminação de informações, hoje claramente superada pela internet: o acesso à “cultura” seria mais fácil para todos, uma espécie de “democratização cultural” ocorreria [é o que Marshall McLuhan dizia em O meio é a mensagem, pelo menos].
Eco separa bem os conceitos e percebe que a Alta Cultura é facilmente transformada em Média e Baixa: lembro que usa o exemplo de Beethoven, até então reservado a uns poucos, que se dissemina pelos veículos de comunicação e se transforma em bem de consumo [por aqui Pour Louise transformou-se em música de caminhão de gás]. É um tema que hoje causa horror: parece que se tornou inadmissível que existam diferenças culturais nesse mundo em que o que vale é apenas a opinião e o gosto pessoais como medida de valor.
Claro que essa conversa poderia ir ainda mais longe se sacássemos da algibeira Walter Benjamin e sua análise do Capital em relação à arte [A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, um ensaio magnífico], mas isso nos levaria longe demais na discussão. Ressalto apenas que a linguagem da Média e, mais ainda, da Baixa Culturas visam especificamente ao lucro e não à exploração da linguagem com o objetivo de se produzir Arte. Deixo claro que não vejo nenhum problema nisso, se levarmos em conta as proporções existentes: a novela da tevê não é a peça de teatro; a pixação do muro não vale o desenho de Picasso; o uso de uma frase musical no cinema não equivale à Nona Sinfonia.
Na literatura não é diferente. Temos a Alta Literatura [de um Shakespeare, de um Joyce, de um Baudelaire, de um Machado], ao mesmo tempo que tempos uma literatura mediana de autores que fazem sucesso exatamente por se utilizarem de uma linguagem simples e acessível, mais próxima da cultura pop do cinema, das HQs e das minisséries do que do livro propriamente dito.
deuses_americanos
É o que Neil Gaiman faz no seu Deuses amricanos. Gaiman é o criador de uma das melhores HQs que já li, Sandman, e usa índices da Alta Cultura em suas histórias. Lembro de uma na qual há uma personagem chamada Finnegans Wake, roubado diretamente de James Joyce, cuja aparência, gorda, de bigodes, meio relaxada e sempre de bengala e chapelão de abas moles, além de seu humor e seus paradoxos, é a de Chesterton. As referências literárias internas de seus quadrinhos é constante. Pop, pop, pop.
Nunca havia lido a literatura de Gaiman. Quando comecei Deuses americanos entendi o seu sucesso: toma toda a estrutura do best-seller [linguagem simples, personagens planas, trama comum e meio óbvia], além de claramente calcar-se no modelo de narrativa de um autor referencial no horror e fantasia, Stephen King. A sacada de Gaiman, no entanto, é outra.
Toma como base a ancestralidade das diferentes culturas que formaram o povo americano: galeses, nórdicos, eslavos, latinos, tribos ainda mais ancestrais e esquecidas, que chegaram à América desde os tempos pré-históricos até os séculos XVII e XVIII. Junto com cada um desses “colonizadores” chegam os seus deuses. É uma espécie de importação cultural que se sedimenta no novo solo e o forma. Esses deuses existem enquanto houver, por parte dos homens, culto e memória. Essa a sobrevivência dos deuses.
A história começa quando Shadow [um nome que revelará sua obviedade] é solto da prisão. Não entro em detalhes: em seu retorno à sua casa encontra um homem, Wednesday, que lhe propõe emprego como segurança e “garoto de recados”; com a mulher recém-morta num acidente de automóvel e sem emprego, Shadow aceita. Nesse ponto que começamos a descortinar a trama: todas as personagens com as quais Shadow cruza e se relaciona são aqueles deuses que chegaram à América nas imigrações dos diferentes povos e estão mais ou menos esquecidos.
Abandonados, os deuses se veem obrigados a trabalhar: Íbis, Anúbis e Set são donos de uma funerária; um leprechaun vive de dar golpes; há três deusas russas que regem a manhã, a tarde e a noite; Locki é motorista; a Rainha de Sabbath é uma prostituta; o deus dos anões é Elvis, a figura de Elvis Presley em sua decadência [um anão de 1,75 metro, “o maior anão de todos os Estados Unidos”] Wednesday é o próprio Odin que vive de golpes. Ficamos sabendo que Thor matou-se nos anos 1930, depressivo. Esse é um grupo que, junto com outros deuses de diferentes mitologias, tenta sobreviver nesse novo mundo “sem deuses”, os Estados Unidos.
O problema é que o homem não vive sem deuses e é movido pela necessidade de acreditar em e cultuar algo. Como suas tradições ancestrais foram perdidas, sentem a necessidade de criar novos deuses e prestar cultos, homenagens e sacrifícios a ponto de oferecerem a própria vida para eles. Assim surgem o grupo opositor que desencadeará uma guerra: o deus da tecnologia [um garoto gordo e cheio de espinhas, um nerd], a deusa da televisão [Lucille Ball, de I Love Lucy], deuses de terno-e-gravata e óculos escuros [deuses da segurança estatal, a CIA, o FBI e o imaginário do serviço secreto nos cinemas], deuses do mundo de consumo, do desejo, do sexo, do prazer, do egoísmo e da inconsequência.
A guerra afetará não o mundo em si, mas a mentalidade dos homens e a forma como eles veem o mundo. Abandonando a tradição dos ancestrais, a humanidade mergulha num período de devastação de valores. Suprimem-se as identidades mais profundas que efetivamente formam o caráter humano – e, formando o seu caráter, forma igualmente o local onde o homem vive e, assim, justifica a existência de uma Nação.
Poderíamos atribuir a Deuses americanos um sentido metafórico e crítico da América do século XXI, suas crises e suas guerras; poderíamos enxergar no livro uma tentativa de análise do comportamento do homem em relação às suas origens abandonadas, ou mesmo a traição dessas origens em troca dos prazeres frugais. Mas creio que seria, para citar Umberto Eco mais uma vez, uma superinterpretação: esses sentidos claramente existem, mas permanecem superficiais e apenas servem como base para aquilo que Neil Gaiman pretende: nos oferecer uma novela divertida, bem bolada e sem grandes preocupações estéticas.
Há literaturas diversas, afinal. Nem todos conseguem ser Shakespeare, que pode também ser muito divertido; basta que cumpram esse papel ancestral de nos contar uma boa história antes de dormir.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s