OS MAIAS: A ESTERELIDADE DE UMA NAÇÃO

Tenho uma história pessoal com Eça de Queirós. Primeiro, minha orientadora na PUC-SP foi Beatriz Berrini, talvez a maior especialista sobre Eça, com quem trabalhei com as correspondências no preparo de uma edição completa: Berrini descobrira mais algumas cartas do período de Paris que não constavam nas Obras Completas pela Nova Aguillar. Lembro de ela me contar que estava à caça de algumas outras desse mesmo período, que Eça teria escrito para uma amante inglesa: sabia com quem estavam, mas a família da moça não desejava abrir mão do material. Berrini morreu há dois anos. Creio que essas cartas continuem em algum baú, escondidas. Depois, em 2003, participei de um simpósio sobre o escritor. Lembro que a aula de abertura foi de Antonio Candido, uma beleza. Apresentei um pequeno trabalho não sobre Os Maias, mas sobre um então inédito, um esboço ainda, fragmentos de uma narrativa que seria maior: Eça retomava a história de Galaaz, da Demanda do Santo Graal, e o mostrava como um guerreiro medieval sem os fumos heroicos e religiosos: decepava cabeças e matava aos montes enquanto buscava o Graal.

maiasLi Os Maias antes dessas experiências, antes mesmo da minissérie da tevê Globo. Aliás, assisti à série, e é boa. Agora, remexendo nos livros da biblioteca e nos arquivos do computador, encontro essa edição. Resolvi folhear só para lembrar do sabor da prosa. Eça de Queirós é uma armadilha: se se ler a primeira página, engrena-se o livro até o fim. É delicioso o humor que encontramos, um humor ácido, às vezes brutal, as críticas, tão atuais e tão aplicáveis ao Brasil, que faz ao seu Portugal do século XIX.

O romance tem como tema aparente o incesto entre Carlos Eduardo e Maria Eduarda. A história é conhecida: Carlos e Maria, netos do patriarca Afonso da Maia, são separados ainda na infância, quando sua mãe foge com o amante italiano e o pai suicida-se. Aqui já há toda a teoria do naturalismo: o Homem como fruto do meio, da História e da hereditariedade, desenvolvida por Hypolitte Taine. A degradação moral da mãe e a fragilidade do pai levam obrigatoriamente ao encontro dos irmãos, frutos dessa mesma degradação moral. Mas esse é o aspecto aparente. O incesto, aqui, não me parece ser o tema central ou, pelo menos, não o foco de interesse do romance: é uma desculpa para a análise da sociedade portuguesa da época.

Explico-me: n’Os Maias é retratada uma classe social abastada formada por herdeiros. O círculo íntimo de Carlos Eduardo todo é composto por pessoas improdutivas que vivem no fausto das festas e dos encontros sociais: são visitas aos amigos durante as tardes, são festas nos palacetes à noite, são encontros nos teatros, são jantares nos hotéis. O próprio Carlos é movido pelo diletantismo: escolhe estudar medicina movido por uma ideia de “ser útil” para a sociedade; o que faz é montar um consultório luxuoso onde nunca entra um paciente; constroi um laboratório de pesquisas farmacêuticas com o que há de mais moderno na ciência, igualmente luxuoso, onde nenhum tipo de pesquisa é sequer iniciado; tem uma grande obra em andamento, História da medicina antiga e moderna, que rascunha, anota, burila o estilo, mas nunca leva ao cabo. A certa altura do romance, ao ser questionado pelo amoroso e tolerante avô a respeito do andamento da obra, e escutar que o estilo deve ser “direto e simples, como convém a um livro desses”, replica: “Nós portugueses somos assim, desejamos o luxo da forma, a sonoridade da palavra, o rebuscar do palavras”, em detrimento ao conteúdo propriamente dito; é o discurso das aparências, tão comuns a nós aqui no Brasil.

O que importa é parecer ser, e não ser. O jogo de aparências é levado a todos os âmbitos da vida, inclusive a escolha das parceiras sexuais. Como é um grupo social bastante restrito, essas relações ocorrem entre homens e mulheres muito próximos: João da Ega, amigo de infância de Carlos e também diletante, tem um caso com a esposa do banqueiro judeu e futuro ministro; quando esse relacionamento termina [o escândalo social previsto, já que todos sabiam do caso, e entende-se que o marido igualmente o sabia, mas essas coisas apenas não podem ser divulgadas às escâncaras], a mulher imediatamente arruma outro amante, do mesmo círculo. Carlos também tem suas amantes; Dâmaso, que inveja Carlos e o imita em tudo, é um alpinista social que deseja as amantes dos outros, a caricatura dessa classe.

Maria Eduarda, por sua vez, criada em Paris por uma mãe que se prostitui para manter a classe à qual deseja pertencer, é levada a buscar proteção com um amante brasileiro, que se descarta dela assim que sabe de seu relacionamento com Carlos. Eles não sabem que são irmãos, coisa que irá se revelar tardiamente por esses acasos que sustentam a literatura. A relação incestuosa parece-me a síntese das relações sociais: Portugal, ou o Portugal “chique”, “civilizado”, lisboeta e culto, é formado por essas famílias tradicionais que herdam as terras de seus antepassados desde os tempos de dom Afonso Henriques, vivendo fartamente graças ao fruto de suas terras e ao trabalho dos outros, mas produzindo cada vez menos e com interesse cada vez menor com a sua própria realidade e com a manutenção de seu país. Não por acaso que as personagens, Carlos e Maria inclusos, fogem para Paris na primeira crise pessoal. É uma classe que não enfrenta nenhum desafio, não resolve nenhum problema, fica à espera de herdar as fortunas dos pais [o caso de João da Ega, p.ex.] enquanto adquirem dívidas na vida lisboeta.

O que desejam, na verdade, é um poder que lhes garanta a admiração dos outros, com o menor trabalho possível: não por acaso que o desejo de muitos é entrar na política, preferencialmente não por eleições mas por indicações a cargos junto à corte. Ser secretário, assessor ou ministro não tem a função de promover progresso social, mas apenas de garantir a vida luxuosa das aparências.

São apenas alguns comentários sobre o que a releitura de Os Maias me despertou, sem a intenção de análise literária em profundidade. O romance é de 1888. 130 anos nos separam. Mas o que é descrito ali é a nossa realidade pura aqui no Brasil. As relações de nossa elite são incestuosas e infrutíferas. Se não há uma consanguinidade propriamente dita, há uma consanguinidade moral que conspurca toda e qualquer possibilidade de desenvolvimento e justiça.

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2 comentários em “OS MAIAS: A ESTERELIDADE DE UMA NAÇÃO

  1. Esta é a imagem do Brasil… uma cópia de Portugal de 130 anos atrás, sem o verniz francês, misturado com o que há de mais brega na Miami de hoje. Triste de ler, ainda mais sabendo que dificilmente chegará sequer ao Portugal de nossos dias, que dirá Miami… O artigo, como sempre, uma delícia.

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