PAUL AUSTER E GRAHAM GREENE ENCONTRAM-SE NO VIETNÃ

NÃO TENHO a menor paciência com Paul Auster, não adianta. Li Desvarios no Brooklin há uns dois anos, por aí, e tive ganas de arremessá-lo pela janela: parecia que Auster escrevia um panfleto Democrata respeitando as cotas para personagens representativas das tais minorias. Acabrunhei.

 

012_auster_trilogiaAí me disseram que Desvarios é fraco mesmo, o piorzinho de Auster, que eu devia ler outras coisas dele e tal. Comprei uns quatro ou cinco num sebo e deixei-os ali naquele canto, ó, e de vez em quando os encarava, desconfiado. O do topo da pilha era a Trilogia de Nova Iorque. Garantiram que esse, sim, era dos bons, talvez o mais importante livro dele, leia, leia que você vai gostar.
Anteontem peguei o livro, depois de ter terminado O americano tranquilo, de Greene. Greene me surpreende sempre – seu estilo, a concisão da narrativa, as personagens bem construídas, a dubiedade que permanece por todo o enredo, tudo exemplo de grande literatura.
A experiência com a leitura de O americano foi intensificada por013_greene_americano eu ter lido, nos dias anteriores, um livro-reportagem sobre o Vietnã, Despachos do front, de Michael Herr, ainda que o livro de Greene se passe no final dos anos 1950, com a guerra ainda nas mãos francesas, e o de Herr pega o fogo todo do napalm de 1968, já no período americano, nada tranquilo, diga-se. O interessante é como Greene desvenda o início da interferência americana numa guerra que não era sua, e a personagem-narrador, um repórter cínico, afirma que aquela será uma guerra perdida. A vida, enfim, é uma guerra perdida.
Talvez seja esse choque de sair de Greene e cair nas mãos de Auster que frutifique minha decepção. O negócio é que me arrasto cheio de fastio pelo romance.
014_despachosNão que “Cidade de vidro”, o primeiro livro da Trilogia, não tenha seu interesse: o jogo de duplicidades, ou máscaras, que a personagem principal usa [é escritor que parou de escrever, mas cria um pseudônimo para produzir novelas policiais, assume o nome de Paul Auster para tornar-se investigador particular]; há também uma ruptura de tempo e de espaço que, se fossem melhor exploradas, poderiam causar estranhamento e maior interesse [como Auster constrói essas rupturas, e mesmo o jogo de identidades das personagens, apenas deu-me a impressão de gratuidade, um recurso do pior do pior gênero de novela]. Até o suposto vilão tem um duplo. Tudo tem um duplo. Poderia gerar uma discussão aprofundada de viés filosófico, mas apenas percebo que o tema já foi explorado – e explorado de melhor maneira – por outros tantos escritores, Dostoiévski, Borges, Machado. Auster faz novelinha e simplifica demais.
O que Paul Auster escreve é um pastiche das narrativas policiais americanas hard-boyled, os romances noir de Hammett e Chandler. Claro, como pastiche, não é para ser levado a sério [a Trilogia não é hard-boyled], mas até mesmo um pastiche deve mostrar a que veio. A personagem principal, Quinn, é um imitador de um ator imitando Humphey Bogart atuando como Marlowe. É tão óbvio, tão raso, que não deixa nada para o leitor.
Pelo visto, deixarei os livros naquele outro canto ali, até que tome nova coragem de enfrentá-los. Quem sabe eu piore e comece a gostar de Paul Auster.
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