COMO ESCREVER HISTÓRIAS DE FANTASIA: A CONSTRUÇÃO DAS PERSONAGENS

O POBRE nasceu lá em Piranducaia do Açude do Pau-de-Dentro [tem o-de-Fora, pelo visto], ou pior, no Baixo Glicério [não tem Alto] e percorreu toda a vida suas duas ruas e ia tomar sorvete na pracinha da igreja. Aí, um dia, leu George R. R. Martin e deslumbrou.

terra media

Ocupou o terreno baldio, expulsou a família de ratos, batizou-o de Reino de Uljsnbbnxjrataz, e colocou lá dentro a maga Guinervhaan, o príncipe da casa Astherton e o gigante Granthüll, com trema e tudo.

Fico pensando que diabos aconteceu com os João, os Francisco, as Maria, as Rosa. Toda vez que leio uma novela dessas de fantasia, escritas por autores brasileiros, fico cheio de dó das personagens: parece-me, sempre, que são filhos daqueles pais sem coração que querem homenagear os quatro avós [Epaminondas, Maria, Fernando, Sônia; daí nasce uma menininha que até poderia ser bonita, mas é Epifermânia, coitada. Mas acho até bom: um nome desses justifica matri-parricídios, sem contar o salário dos psicólogos].

Mas sou de boa índole. Aqui vai uma dica aos autores de “ficção de fantasia” ou o caralho que seja: como criar nomes. É simples:

1] Pegue um nome comum, Maria, p.ex.;
2] Coloque ali um “H”, assim: Mahria;
3] Troque o “i” por “y”: Mahrya;
4] Dobre o “y”: Mahryya;
5] Acrescente um hífen: “Mah-Ryya” – e você tem uma princesa guerreira do Reino de Je-Rhy-Kwa-Kwarah.

Pode-se fazer a coisa com qualquer nome, Fabio, p.ex.: Fahbio, Fahbyo; Fahbyyo; Fah’by-Yio. Carla: Karlah; Ka’arlah; Ka’ar-laha. Mônica: Monyka; M’on-y-Ka; M’on-ÿ-kah. Cleusa: Klewza; Kle-W’Zah. Denilson: Deny’L-Son; De’nyy’L-Söwn; Débora: Dé-boh-R’ah. E por aí vai.

Agora, Epifermânia tem jeito não.

CORTÁZAR & BÁBEL, dois caras supimpas

ISAAC BÁBEL  e Julio Cortázar chegam juntos à biblioteca.

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Sobre este Último Round, uma curiosidade ou uma insanidade: os dois volumes foram lançados juntos em 2004, por aí. Hoje encontra-se em livrarias e sebos apenas o volume 2. O primeiro é uma dificuldade do cão. Sabe-se lá a razão. Não vejo lógica em duas tiragens diferentes para os livros complementares. Mas enfim, quem sabe um maluco que tenha comprado TODOS volumes 1 só para ter o prazer de destruí-los, imaginando a minha frustração.

O outro é um Bábel, Mária, uma peça e cinco histórias, pela falecida Cosac Naify, Bábel que foi assassinado por Stálin no expurgo de 1938, Bábel que apoiou a revolução na primeira hora, Bábel que defendeu esse mesmo doce Stálin até que fosse tarde demais. Uma boa lição de moral para quem defende políticos, aliás.

A MORTE DE ÁGATHA

Não se trata de aperfeiçoar, de decantar, de resgatar,

de escolher, de livre-abitrar, de ir do alfa ao ômega.

Já se está. Qualquer um já está. O disparo está

na pistola; mas é preciso apertar o gatilho.

[Julio Cortázar]

Apenas às quatro horas contamos para Rosa que Ágatha morrera. Ela nos encarou um a um, em silêncio, com aqueles seus olhos vagos e terríveis, e voltou a fixar a parede cinza.

Reunimo-nos por muito tempo, como sempre fizemos, para definir qual o momento preciso para dar a notícia. Nunca sabíamos ao certo qual seria a reação de Rosa (e pior: quando ela ocorreria) e quais os efeitos catastróficos que desencadearia sobre nossa família. Discutimos, ponderamos, levantamos prós e contras, erguemos hipóteses, defendemos pontos de vista, sempre com a esperança de que seria possível, afinal, adiar o instante de contar que Ágatha, a nossa Ágatha, estava morta.

ilustra conto

Cogitou-se, inclusive, nada dizer (terá sido Jorge quem deu a ideia? ou Paula? eu, decerto, não fui, já cansado de tantos anos circunavegando o mesmo território), mas a posição inflexível de Flávia nos venceu a todos: era ela a arraigada defensora da verdade e da clareza, dizendo que era isso que caracterizava toda nossa estirpe. Silenciamos frente à dura realidade: seria, mesmo, cruel para com Rosa negar-lhe a informação. Afinal, o que mais restava? Acontecesse o que acontecesse, a notícia deveria ser dada. Mas quando, mas como?

A última crise ocorrera fazia três anos, por um descuido de Jorge. Estávamos à mesa de jantar (sempre levávamos Rosa de seu quarto cinza para a sala de jantar quando a mesa já estava posta, de modo a minimizar os riscos) quando Jorge, esquecido em sua felicidade, disse:

Fui promovido a gerente de contas e

A frase ficou ali, pendente de seus lábios junto com o fio de sopa. Flávia arregalou os olhos, encarou Jorge, feriu meus olhos com seu ar assustado, olhou para Rosa; Paula congelou sua colher a meio caminho da boca, sem estremecer; Ágatha soltou o talher, ergueu a mão sobre a boca e engoliu um soluço de choro; Jorge tinha ainda pendente a frase fatídica, o sorriso transformando-se em máscara trágica, a culpa estampada na face; eu baixei a cabeça, tentando encontrar na sopa algum caldo primordial que me explicasse as coisas e como evitar a catástrofe. Rosa parou de comer, olhou cada um de nós com seus olhos cheios de indiferença e voltou a jantar. Mas era tarde: agora era só uma questão de tempo.

Ninguém (com exceção de Rosa, é importante que todos os fatos fiquem claros) conseguiu terminar o jantar. Após a sopa, o pato dourado tão laboriosamente preparado por Paula foi esquecido, a salada verde, abandonada, o pudim de ameixas deixado de lado. Rosa, como sempre, devorou sua parte, no seu mutismo habitual, e esperou que a levássemos de volta ao seu quarto cinza, à sua poltrona cinza, sobre o tapete cinza, para que ali ficasse (sob a vigília que vem de 20 anos) quieta (mas que pode saber?) até a manhã seguinte.

Aquela noite, lembro-me bem, Flávia teve uma discussão terrível com Jorge enquanto eu tentava consolar Ágatha que soluçava sobre sua cama azul e dava socos no travesseiro creme, tentando desvencilhar-se da incompreensão.

O mal está feito, eu disse, não nos resta outra coisa…

Em toda nossa história com as crises, em todo o aprendizado em  como lidar com Rosa, por todos os quase 30 anos que percorremos juntos os seus vaticínios, nada era mais difícil do que a espera.

No começo, a reação de Rosa era quase que imediata. Uma frase, uma notícia (boa ou má), uma imagem, um som, despertava em Rosa essa espécie de transe e seu discurso. De início eram curtos, como quando papai entrou no quarto carregando um Jorge de dois anos que caíra e ralara o joelho e Rosa discorreu sobre os benefícios da água oxigenada por 40 minutos completos. Nunca soubemos de onde ela havia tirado aquelas informações (nunca soubemos, aliás, de onde ela tirava tudo aquilo: Rosa não lia; Rosa nunca estudou; Rosa não fazia ideia, mínima que fosse, de coisa alguma sobre o que falava em suas crises). Depois, com o passar dos anos (papai havia desistido e mandava, a cada três ou quatro meses, uma carta onde dizia estar tudo bem; nunca perguntou por Rosa e nós nunca lhe informamos), a reação foi se esparçando, lentamente, até que pensamos, um dia, com alívio quase alegre, que não haveria mais crise alguma. Engano: uma semana após notificarmos que Nicolau, o gato da casa, havia sido atropelado, Rosa discorreu sobre felinos por 83 horas e 27 minutos, para desespero de Flávia e de Paula que estavam responsáveis pelos cuidados de Rosa enquanto Jorge e eu trabalhávamos.

(Ágatha fazia o quê nessa época? As informações que acumulei sobre todo nosso caso familiar são tantas e tão complexas que acabo com esses lapsos de memória. Ou eu estou sofrendo de um mal oposto ao de Rosa, esquecendo aos poucos as coisas que efetivamente sei e tenho registradas como o cronista desse livro da revelação de nossa família?)

A frase de Jorge se revelava, então, um perigo para os dias seguintes àquele jantar, assim como a notícia da morte de Ágatha poderia despertar quaisquer memórias (se é possível chamar memórias a algo que não conhecemos) das mais imprevisíveis. “Promoção”, “gerente” e “contas” como apenas sugestões ínfimas para a fatal intempérie: quaisquer combinações dessas palavras, ou significados outros que não aqueles exatos pretendidos: o possível na nebulosa na qual Rosa mergulhava, oracular.

Anos terríveis. Um dia, após o banho, Rosa desencadeou a falar sobre perfumes e seus métodos de fabrico (passamos a usar sabonetes e produtos sem perfume a partir de então); noutra ocasião, após o telejornal, Rosa falou por mais de três dias sobre o processo de fissão nuclear e suas fórmulas (tiramos, óbvio, a tevê do seu quarto); deu uma aula insuportável sobre Chopin, seu método de composição, sua biografia (dois dias e meio; excluímos o rádio); discorreu sobre aquarelas, barcos, escolas pictóricas (retiramos os quadros das paredes e pintamos o quarto de cinza e trocamos os móveis por horríveis blocos soviéticos – o cinza, descobrimos, é a mais inócua das cores); falou por quase uma semana sobre as diferenças de tecidos, procedimentos de tingimento, entrelaçamentos de fios (a partir de então as suas roupas foram eximidas; a nudez de Rosa, com os anos, deixou de ser um incômodo). A frase de Jorge resultou numa lista interminável de datas, percentuais, taxas de juros e coeficientes financeiros referentes aos últimos sete anos, pelo menos, uma semana e três dias. O que poderia desencadear a morte de Ágatha?

Claro que procuramos médicos. Atendiam, todos, em casa (depois da primeira experiência, um tratado sobre administração hospitalar de oito dias, 15 horas e18 minutos, acreditamos ser mais seguro Rosa permanecer em casa). Quando muito balançavam a cabeça, sem compreender o mal que ali se nos impunha, insidioso, presente, prenhe, tentacular. Medicamentos pouco (ou nada) adiantavam, mesmo porquê o menor dos comprimidos, a mais simples aspirina, era fatalmente seguida pela imensidão das bulas.

As mulheres foram as primeiras afetadas. Os homens, afinal, tínhamos de garantir a sobrevivência da família. Mas ainda assim era uma solução insuficiente: mesmo com as três revesando-se nos cuidados e nas vigilâncias, a fina corda que as sustinham nesse infindável cotidiano de expectativas mostrava-se frágil: seus tons desafinavam, discussões explodiam nos piores momentos (ainda que qualquer momento se mostrasse pior: uma voz erguida um decibel que fosse poderia ser escutada por Rosa mergulhada em seu universo cinza), a tensão minava nossa convivência.

Primeiro Jorge largou o emprego para se dedicar a Rosa; poucos anos depois foi minha vez. Acreditávamos que apenas com nós cinco ali, com nossa presença na velha casa, com nosso silêncio de espectros, com a marca de nossa permanência insistente (ainda que muda, ainda que etérea), conseguiríamos domar aquela voz ancestral com seus vaticínios para nós incompreensíveis.

Não é preciso dizer que nenhum de nós se casou. Como explicar aquela sacerdotisa de olhos mortos, nua, mergulhada no cinza de sua cela monástica, isolada de qualquer convivência humana a não ser a nossa? (Chegamos a duvidar, um dia, de nossa humanidade?) Como levar para a casa um possível companheiro, uma mulher que partilhasse conosco desse destino? Nunca discutimos o assunto: nós sabíamos que a saída de um de nós daquela redoma, assim como a incursão de qualquer pessoa nos corredores tumulares em que vivíamos, era impossível e inapropriado.

Ágatha, a pobre Ágatha, tentou escapar desse destino, para horror de seu candidato a noivo (usava sempre uma bela gravata verde com detalhes, cactos talvez, amarelos): a sua presença à mesa, na hora do jantar (sete ou oito anos se passaram?), desencadeou uma crise imediata. Imagino o que o pobre Fernando sentiu e pensou ao se deparar com Rosa disparando um longuíssimo discurso sobre Maximiliano I, Imperador do México (talvez Fernando, que, óbvio, era mexicano, ficasse agradavelmente surpreso com o conhecimento da velha Rosa, não fosse sua nudez à mesa do jantar). Ágatha chorou, convulsa; sempre foi a mais frágil. E agora o que sua morte poderia desencadear?

Qualquer previsão (ou sua tentativa) é impossível. Contar a Rosa era nosso dever, e nos preparar para o espectro que se erguerá, não importa o tempo que leve, uma necessidade: Paula cuidará das refeições; Jorge, Flávia e eu vamos revezar nossa atenção, vamos perscrutar o oceano cinza em busca do menor sinal, da mais sutil ondulação que revele a chegada do leviatã (nosso temor é que tudo seja inútil, afinal). Mantemos, assim, o suspense de nossa existência entre o pó de nossa casa. Sim, era inevitável, por maior que fosse o desejo de silenciar. Sabemos o que nos espera: Ágatha sucumbiu. Cada um de nós a seguirá ao seu tempo. E a areia do tempo da voz de Rosa ecoará nos cômodos vazios da casa, entre suas paredes cinzas.

Depois de dois anos de meio buscando uma solução, às quatro horas da tarde informamos a Rosa que Ágatha morrera.

O GRANDE CAÇADOR BRANCO

HEMINGWAY CONTOU, num texto publicado em Tempo de Viver, coletânea de artigos jornalísticos [o segundo volume, sobre as guerras pelas quais passou, é o Tempo de Morrer], sobre sua caçada a um leão devorador de homens no meião da África. Levou dois meses perseguindo o bicho até meter-lhe uma bala na testa. Hemingway era um “grande caçador branco”, contratado pelas tribos de África e autorizado pelos governos, para perseguir aqueles animais que causavam a morte de criações e pessoas. Hemngway gostava de caça e de touradas e de guerra.
Não chego a tanto. Na verdade, creio que seja incapaz desses atos heroicos. O último leão que vi foi no Simba Safári, SP, e o bicho não me pareceu assim tudo isso, nem um pouco monárquico, digamos, gordo e bem alimentado, deitado no meio da pista, bocejando. Touradas vi na tevê e são bonitas. A última guerra da qual participei tinha oito ou nove anos para desespero dos vizinhos [tenho certeza que foram eles que moveram uma petição pública para proibir a venda de revólveres de espoleta, malditos].
autonautas
Na verdade, minhas aventuras de caça, de sedução da taurimaquia e de guerras restringem-se aos livros. Ganho de Hemingway nesse queito: já passei 20 anos caçando um determinado livro, ou uns determinados livros, pois que foram, são, muitos mais do que um, apenas.
Às vezes, temos de deixar escapar a presa. Dói fundo, verdade, mas naquele exato momento ela não está ainda pronta para o abate ou, o que geralmente é o caso, eu não tenho dinheiro para comprar munição adequada. Foi o caso desse Os Autonautas da Cosmopista, livro escrito por Julio Cortázar e sua esposa Carol Dunlop sobre uma viagem Paris-Marselha.
A última vez que o vi disponível foi num sebo aqui no Centro de São Paulo por R$ 300,00. É uma edição, quase completamente extinta, de 1991 pela Editora Brasiliense. Uma beleza de projeto gráfico que reproduz os manuais de automóveis da época [não sei se continuam com o mesmo formato horizontal, aliás, não sei se ainda sei dirigir, como diria Sócrates, aquele]. Urrei de dor e desespero: aquela beleza de animal ali à mão, imaginei sua cabeça empalhada na minha biblioteca, olha, esse é o último Autonautas da face da Terra e ele é meu etc., deve ser esse o prazer mórbido de um caçador, não o de Hemingway, que matava por necessidade, mas esses outros meio tarados. Eu sou meio tarado.
O negócio é ter paciência, escutem o que lhes digo: a natureza, essa madrasta sacana, sempre reserva surpresas. Por algum motivo, o bichinho aparece na tua frente quando você menos espera. Claro que o caçador deve ficar alerta e seguir as pistas, e as pistas levaram-nos a um vendedor particular no Rio de Janeiro que tinha o exemplar, um tantinho sujo mas em perfeitas condições, por, em comparação aos outros zoos, míseros R$ 80.
Disparamos, Assunção​ e eu, no ato, bang-bang-bang-bang. De modo que, 20 anos depois, esse raro Cortázar / Dunlop está aqui, olhe só sua bela cabeça ali na estante.

CORTÁZAR SOBRE A TRADUÇÃO E UMA LEMBRANÇA PESSOAL

LENDO O VOLUME 2 das Cartas de Julio Cortázar, um dos meus escritores favoritos, me deparei com um trecho que me fez lembrar daquela polêmica besta, saída dos círculos olavetes, a respeito da tradução de Os Demônios, de Dostoiévski.

Diziam, dizem, que a tradução direta do russo, feita por Paulo Bezerra para a Editora 34, é má, ruim, péssima e canalha: Bezerra teria manipulado a tradução para que ela concordasse com sua ideologia etc. [Bezerra é comunista de carteirinha e estudou russo na Universidade de Moscou nos tempos soviéticos]. Diziam, dizem, que a tradução boa mesmo, de verdade, foi a feita por Rachel de Queiróz, do francês, o que me parece maluquice, afinal uma tradução de uma tradução afasta-se ainda mais do original.
Pois que li as duas, e a de Bezerra é muito superior. A mim me pareceu que Rachel de Queiróz traduziu um livro de autor francês, e não russo, aquelas frases longuíssimas e cheias de volutas, de idas e vindas, de vírgulas intermináveis – coisa de francês que, parece, tem verdadeira ojeriza à ordem direta e à sentença curta. Não sei: é impressão.
cartasMas aí leio esse trechinho de uma carta de 8 de maio de 1957 a Jean Barnabé [um amigo franco-uruguaio de Cortázar, acho que deve-se pronunciar Jean Barnabô, sei lá], que trata exatamente da tradução, ou melhor: da recusa de uma tradução para o francês do livro de contos Bestiário. A mim explicou alguma coisa:
“Creio haver-te dito na minha carta anterior – anterior à minha partida para a Índia – que levei [a tua tradução do] Bestiaire ao [editor] Caillois. Ele ma devolveu dizendo-me que as traduções lhe pareciam “demasiado apegadas ao original” (sic). Quando lhe pedi que me esclarecesse o que queria dizer, sustentou que você havia sido “demasiadamente fiel” em algumas coisas, afastando-se do francês para manter-se mais próximo do tom espanhol, do ritmo da frase etc. Creio que foi nesse momento que compreendi finalmente por que as traduções para o francês me parecem quase sempre muito distantes do original; evidentemente, gente como Caillois considera que o autor não importa grande coisa: a única coisa que conta é salvar a todo o custo o GRRRAANNDE estilo francês, a maneira francesa de dizer as coisas… ainda que com o risco de qualquer traição.”

E, mais adiante, uma frase que vem a calhar com a minha memória:

“Como lhe dizia acima, conheço muito bem os “retoques” [nas traduções] de meus colegas franceses. São capazes de fazer falar um personagem de Dostoiévski como se fosse Julien Sorel ou Rastignac.”

Talvez por isso aqueles senhores, tão vetustos e sábios, prefiram a tradução de Rachel de Queiróz à de Paulo Bezerra. Não é apenas uma questão política, de tudo imbecil [alguém consegue acreditar que alguém traduzirá uma obra imensa como Os Demônios para transformá-la em panfleto político de esquerda? Em um país de maus e porcos leitores que mal e mal se achegam a Paulo Coelho?]. Mas esse é um mal nosso, brasileiro. Ainda estamos presos ao “francesismo”, ao nariz empinado e empoado de uma academia velha e vetusta. Ainda que Olavo de Carvalho e seus seguidores critiquem a academia duramente, dizendo que é de todo inútil, defendem com garras afiadas e veneno na língua um estilo de escrita que cheira a mofo e recheado da retórica mais vulgar e sem sentido: o pior do pior de Camilo Castelo Branco para baixo.

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QUANDO O CARINHA vinha com uma cópia de um artigo, minha prática em sala de aula era uma só: a sessão de humilhação pública e reprovação imediata do aluno. Não tinha segunda chance. Todos os alunos eram avisados, no primeiro dia de aula, que cópias não eram admitidas – plágio é crime, eu dizia, e comprova a mais completa incapacidade para se seguir na área acadêmica ou profissional. Numa faculdade onde trabalhei a coisa ficou tão séria que a direção teve de incluir uma regra específica: qualquer citação, de uma única linha que fosse, sem aspas ou sem referência bibliográfica, seria considerada plágio e o aluno, reprovado.

livros_fogueiraCheguei a reprovar aluno no primeiro bimestre por causa disso. Disse que ele não precisava aparecer mais nas minhas aulas e que, se no ano seguinte, na DP, caísse nas minhas mãos, estaria reprovado de novo. E de novo. E de novo.
Uma vez pedi um trabalho sobre a questão da poesia em Platão para minha turma de teoria da literatura. O prazo era de quatro meses. Especifiquei que queria no mínimo três páginas [aquela coisa: Times New Roman, corpo 12, espaço 1 ¹/², bibliografia etc.]. Uma moça apareceu com um trabalho lindo-lindo, seis páginas, bibliografia atualizada, grande, citações corretas, tudo muito bem construído e tal.
Acontece que o artigo havia sido copiado duma página na internet, onde fora publicado no ano anterior.
O artigo era meu.
A dita aluna não se deu sequer ao trabalho de ler O NOME DO AUTOR daquela pinóia, apenas copiou / colou / mandou ver. Ela veio com o papo de “pensei que era para encontrar alguma coisa sobre o assunto, não para escrever”. Mais ou menos a tal “tradução adaptada” do Senhor do Inep, Enem & Adjacências.
Pois que chegamos a isso, finalmente! Elevamos à condição de ministros, diretores, chefes de departamentos, não aquelas pessoas que têm fundo acadêmico, mas as que se comportam como alunos ainda incapazes de produzir alguma coisa válida para a academia partindo do que eles “acham” que é certo e verdade. Qualquer capiau semiletrado escuta que o que “acham” não vale um peido; que suas opiniões devem ser guardadas e trancadas lá no fundo do armário e que primeiro devem aprender a raciocinar, pesquisar e pensar, não nessa ordem, para, depois, apresentarem alguma coisa que mereça ser lida e estudada.
Murilo Resende é esse rapaz prepotente que não sabe ler nem pesquisar nem compreender aquilo que lê ou vê à frente do nariz. Sua opinião sobre Dostoiévski e sobre as interpretações de Mozart são a prova cabal disso: um mau leitor e um mau ouvinte que acredita que basta citar esses dois para dar-se ares de erudito e intelectual. Agora descobre-se que ele pageou um artigo de 1992, publicado numa revista acadêmica inglesa, sobre a Escola de Frankfurt. Usou como desculpa que fez uma “tradução adaptada”. É a mesma canalhice dos meus alunos citados nos primeiros parágrafos. Funciona que é uma maravilha para quem é analfabeto e iletrado e acredita em interpretações distorcidas de “aulas de filosofia” de Olavo de Carvalho.
Esse rapaz, na minha mão, teria sido reprovado no primeiro semestre do curso de administração e levado umas chibatadas em público. Foi elogiadíssimo pelo Olavo, claro, cuja única grande capacidade é reconhecer o valor dos puxa-sacos. Por isso os olavetes odeiam a academia: são obrigados a apresentar coerência e capacidade e formação e, queiram ou não, reconhecer que não valem grande coisa e que há chão a ser percorrido.
Como não possuem essa capacidade, saem por aí, como o senhor Resende, falando em “queimar livros” de seus desafetos.
Bem-vindos à Era da Estupidez.

MURILO RESENDE FERREIRA ASSASSINA RALSKONIKÓV

MURILO RESENDE FERREIRA é o nome do rapaz que irá cuidar do Inep, portanto do Enem. É olavoide, aluninho do Guru e Mestre dos Mestres, Olavo de Carvalho. Só conseguiu essa boquinha por causa disso: aluno do Olavo e amigo do ministro da educação, Veléz Rodríguez, até então um obscuro filósofo que ninguém lera, como é de praxe entre os olavoides.

Murilo Resende Ferreira escreveu um artigo na Gazeta do Povo, “O jacobino hermenêutico e a liberdade de matar”, sobre o aborto. Já deixo claro que sou contra o aborto. Não é esse o problema do artigo.

O problema é o trecho que reproduzo abaixo, sobre Dostoiévski. O Senhor do Inep, Enem e Adjacências deturpa o escritor russo ao seu bel-prazer apenas para que sua obra, no caso Crime e Castigo, concorde com a excrescência ideológica que defende.

murilo resende ferreira

Diz que Ralskonikóv é um “típico estudante esquerdista”. Bobagem de leitor superficial, raso e ignorante. Não entendeu blicas a posição de Ralskonikóv, que nada tem a ver com a “esquerda”. Ele, a personagem, divide os homens entre “Napoleão ou piolhos”, sendo que Napoleão não deve nenhuma justificativa moral à humanidade quando mata um piolho. Ou a ignorância é minha: até hoje não sabia que Napoleão era de esquerda, ora que coisa.

Depois, comete um desvio histórico que, se não foi por ignorância, o é por canalhice: diz que Dostoiévski bebe em Nietzsche e seu Übermensch. Acontece que Crime e Castigo foi publicado em 1866; Nietzsche publicou seu primeiro livro em 1872. Mesmo depois dessa obra não há, em nenhuma obra do velho russo, a menor referência ao maluco alemão.

Alguém aí na terceira fila pode dizer que isso que eu escrevo agora é “preciosismo”, um errinho tolo do cara. Não é. É a assinatura do atestado de arrogância, ao falar de algo que não conhece; é o reconhecimento da própria limitação ao analisar o que não leu, ou, se leu, leu mal e usando filtros ideológicos inadequados. Não espero, por parte de alguém que irá atuar diretamente com a educação de nossos jovens, nada menos do que a capacidade de ler e compreender um texto. Mais e melhor: a capacidade de não ser canalha, inculto, parcial, manipulador e medíocre.

Mas estamos falando de um aluno de Olavo de Carvalho, pois não? Como exigir que não seja canalha, inculto, parcial, manipulador e medíocre?

[https://www.gazetadopovo.com.br/…/o-jacobino-hermeneutico…/…]

A mente esquerdista: os malabares na esquina do pensamento

Escrevi outro dia minha lista das melhores leituras do ano. Nela incluí o que chamei de “duas incomensuráveis porcarias”: 12 regras para a vida, do festejado Jordan Peterson, e O conto da aia, de Margareth Atwood. Achei-os ruins por motivos diversos, mas principalmente por serem festejados e elogiados e, cá entre nós, serem superficiais. O livro de Peterson mantém-se no nível da autoajuda mais banal com um quê de psicologismo de revista Capricho; o romance de Atwood repoduz uma distopia manjada com personagens planas e óbvias. Claro que o papel de um leitor é enfrentar de tudo, até o que é ruim; afinal, não se lê apenas aquilo que nos interessa [ou: pelo menos eu não leio apenas aquilo que me interessa, e creio que essa deva ser uma regra para qualquer bom leitor]. Não trato, no entanto, desses dois livros.

mente esquerdistaAcontece que me peguei pensando na conjuntura política nesse final de 2018 e a posse do novo presidente que assumirá dia 1º próximo. Há um comportamento festivo em andamento, há uma bruta esperança no homem, há uma defesa intensa de suas ideias. Há, na verdade, um completo desprezo por aquilo que é essencial para se lidar com as coisas da vida: a postura crítica, seja em relação à literatura, seja em relação à política. Notando isso, lembrei desse livro do dr. Lyle H. Rossiter, A mentalidade esquerdista – as causas psicológicas da loucura política, onde o autor tenta [e já digo: não consegue] analisar como os homens de esquerda pensam e de que forma esse pensamento leva a um comportamento que ele, autor, considera errado e doentio.

Rossiter é psicólogo. Trabalhou nas Forças Armadas americanas. Conversou com um sem-número de veteranos de guerra. A partir dessas anotações e dessa experiência, Rossiter chega a alguns pontos em comum daquilo que ele considera “a mente esquerdista” como uma doença mental: são pessoas infantilizadas que não acreditam na própria capacidade, incapazes de construir seu próprio destino; portanto, apoiam um Estado forte e intervencionista, que os tutoreie e faça com que cumpram seu papel social. Essas pessoas, diz Rossiter, abraçam a ideia do Estado forte, uma espécie de Estado-paternal [as palavras são minhas] que seja duro contra aquilo que acreditam ser injusto socialmente e que os limite em suas ações individuais. O Estado torna-se o provedor de tudo e, ao assumir o papel de provedor, isenta os cidadãos de assumirem quaisquer responsabilidades.

A sequência desse pensamento parece lógica. Realmente: a esquerda, e quem pensa como a esquerda, espera um Estado forte e provedor. Isso não se discute. Anula o papel do indivíduo e as responsabilidades passam desse plano para o coletivo, numa ordem cerrada de objetivos a médio e longo prazos a fim de se “construir um mundo melhor e mais justo”. Prega o papel do igualitarismo de todos, menos daqueles que representam um obstáculo aos objetivos da “nova ordem” implantada. No fim e ao cabo, diz o autor, a mente esquerdista é tirânica e capaz de qualquer coisa, inclusas a mentira e o assassinato, para chegar ao seu fim.

É mentira? Não.

Mas é uma simplificação. Ou melhor: é um recorte mal feito e parcial, na tentativa, frustrada, de defender uma causa [e não uma tese]. Rossiter prega que a esquerda é má em princípio e quem a apoia e defende detém um distúrbio mental, tratável pela psicoterapia e uns remedinhos tarja-preta.

Acontece que esse comportamento, como podemos observar hoje, às vésperas da posse de Bolsonaro, identificado com a direita e cercado por homens de direita e seguidor daquele que é considerado “o guro da nova direita, Olavo de Carvalho”, esse comportamento, eu dizia, é comum a qualquer espectro político. Daí a direita, temerosa de ser identificada com o fascismo e o nazismo, rotular esses dois movimento como “esquerda”: partem do princípio que a doença ideológica é exclusiva dos marxistas-leninistas-trotskystas-stalinistas, mas não olham para o próprio umbigo, temerosos de perceber que eles próprios são portadores desse distúrbio mental que anula a individualidade e as responsabilidades e demoniza os opositores como “bandidos”.

A irresponsabilidade pessoal, assim, não é exclusiva da esquerda ou da direita, mas de qualquer um que seja infantilizado e espera uma figura paterna que cuide de seus interesses. Elogiar e defender Bolsonaro e equipe, concordar com sua postura autoritária e preconceituosa, acreditar que a “nova era” que ele representa são características opostas às dos últimos 15 anos [alguns são mais exagerados e dizem que mesmo o período da ditadura militar, desde 1964, era de esquerda] não é uma visão isenta, nem crítica e nem mesmo que pretende o bem comum, ainda que falem em nome do “povo brasileiro” e do “futuro da nação”. Falar em nome “do povo” e “da nação” é um dos princípios de qualquer governo ditatorial, seja de esquerda, seja de direita.

O livro de Rossiter é um malabarismo retórico. Apenas isso. Engajado numa ultrapassada Guerra Fria que ainda encontra comunistas embaixo da cama, faz de tudo para provar que o esquerdismo não é apenas uma posição política [errada, concordo], mas uma doença mental. Na ânsia de defender seu panfleto psico-político, abandona propositalmente todo o comportamento idêntico da direita.

A posse do Bolsonaro é o elogio da infantilização. Uma infantilização perigosa. Não se dá armas para crianças. Não se dá armas para crianças com distúrbios mentais. Foi que o a maioria dos brasileiros fez em 2018.