A mente esquerdista: os malabares na esquina do pensamento

Escrevi outro dia minha lista das melhores leituras do ano. Nela incluí o que chamei de “duas incomensuráveis porcarias”: 12 regras para a vida, do festejado Jordan Peterson, e O conto da aia, de Margareth Atwood. Achei-os ruins por motivos diversos, mas principalmente por serem festejados e elogiados e, cá entre nós, serem superficiais. O livro de Peterson mantém-se no nível da autoajuda mais banal com um quê de psicologismo de revista Capricho; o romance de Atwood repoduz uma distopia manjada com personagens planas e óbvias. Claro que o papel de um leitor é enfrentar de tudo, até o que é ruim; afinal, não se lê apenas aquilo que nos interessa [ou: pelo menos eu não leio apenas aquilo que me interessa, e creio que essa deva ser uma regra para qualquer bom leitor]. Não trato, no entanto, desses dois livros.

mente esquerdistaAcontece que me peguei pensando na conjuntura política nesse final de 2018 e a posse do novo presidente que assumirá dia 1º próximo. Há um comportamento festivo em andamento, há uma bruta esperança no homem, há uma defesa intensa de suas ideias. Há, na verdade, um completo desprezo por aquilo que é essencial para se lidar com as coisas da vida: a postura crítica, seja em relação à literatura, seja em relação à política. Notando isso, lembrei desse livro do dr. Lyle H. Rossiter, A mentalidade esquerdista – as causas psicológicas da loucura política, onde o autor tenta [e já digo: não consegue] analisar como os homens de esquerda pensam e de que forma esse pensamento leva a um comportamento que ele, autor, considera errado e doentio.

Rossiter é psicólogo. Trabalhou nas Forças Armadas americanas. Conversou com um sem-número de veteranos de guerra. A partir dessas anotações e dessa experiência, Rossiter chega a alguns pontos em comum daquilo que ele considera “a mente esquerdista” como uma doença mental: são pessoas infantilizadas que não acreditam na própria capacidade, incapazes de construir seu próprio destino; portanto, apoiam um Estado forte e intervencionista, que os tutoreie e faça com que cumpram seu papel social. Essas pessoas, diz Rossiter, abraçam a ideia do Estado forte, uma espécie de Estado-paternal [as palavras são minhas] que seja duro contra aquilo que acreditam ser injusto socialmente e que os limite em suas ações individuais. O Estado torna-se o provedor de tudo e, ao assumir o papel de provedor, isenta os cidadãos de assumirem quaisquer responsabilidades.

A sequência desse pensamento parece lógica. Realmente: a esquerda, e quem pensa como a esquerda, espera um Estado forte e provedor. Isso não se discute. Anula o papel do indivíduo e as responsabilidades passam desse plano para o coletivo, numa ordem cerrada de objetivos a médio e longo prazos a fim de se “construir um mundo melhor e mais justo”. Prega o papel do igualitarismo de todos, menos daqueles que representam um obstáculo aos objetivos da “nova ordem” implantada. No fim e ao cabo, diz o autor, a mente esquerdista é tirânica e capaz de qualquer coisa, inclusas a mentira e o assassinato, para chegar ao seu fim.

É mentira? Não.

Mas é uma simplificação. Ou melhor: é um recorte mal feito e parcial, na tentativa, frustrada, de defender uma causa [e não uma tese]. Rossiter prega que a esquerda é má em princípio e quem a apoia e defende detém um distúrbio mental, tratável pela psicoterapia e uns remedinhos tarja-preta.

Acontece que esse comportamento, como podemos observar hoje, às vésperas da posse de Bolsonaro, identificado com a direita e cercado por homens de direita e seguidor daquele que é considerado “o guro da nova direita, Olavo de Carvalho”, esse comportamento, eu dizia, é comum a qualquer espectro político. Daí a direita, temerosa de ser identificada com o fascismo e o nazismo, rotular esses dois movimento como “esquerda”: partem do princípio que a doença ideológica é exclusiva dos marxistas-leninistas-trotskystas-stalinistas, mas não olham para o próprio umbigo, temerosos de perceber que eles próprios são portadores desse distúrbio mental que anula a individualidade e as responsabilidades e demoniza os opositores como “bandidos”.

A irresponsabilidade pessoal, assim, não é exclusiva da esquerda ou da direita, mas de qualquer um que seja infantilizado e espera uma figura paterna que cuide de seus interesses. Elogiar e defender Bolsonaro e equipe, concordar com sua postura autoritária e preconceituosa, acreditar que a “nova era” que ele representa são características opostas às dos últimos 15 anos [alguns são mais exagerados e dizem que mesmo o período da ditadura militar, desde 1964, era de esquerda] não é uma visão isenta, nem crítica e nem mesmo que pretende o bem comum, ainda que falem em nome do “povo brasileiro” e do “futuro da nação”. Falar em nome “do povo” e “da nação” é um dos princípios de qualquer governo ditatorial, seja de esquerda, seja de direita.

O livro de Rossiter é um malabarismo retórico. Apenas isso. Engajado numa ultrapassada Guerra Fria que ainda encontra comunistas embaixo da cama, faz de tudo para provar que o esquerdismo não é apenas uma posição política [errada, concordo], mas uma doença mental. Na ânsia de defender seu panfleto psico-político, abandona propositalmente todo o comportamento idêntico da direita.

A posse do Bolsonaro é o elogio da infantilização. Uma infantilização perigosa. Não se dá armas para crianças. Não se dá armas para crianças com distúrbios mentais. Foi que o a maioria dos brasileiros fez em 2018.

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Um comentário em “A mente esquerdista: os malabares na esquina do pensamento

  1. Quando conheci o ilustre desconhecido Olavo de Carvalho, na virada do milênio, ele era cercado de jovens intelectualmente promissores e vindos de famílias tradicionais, como o Pedro Sette Câmara e o Martim Vasques da Cunha, seduzidos pelo discurso olaviano contra a mediocridade da vida acadêmica brasileira e pela proposta de formar uma nova elite cultural.

    Hoje, quase duas décadas depois, Olavo de Carvalho virou um fenômeno de massas, mas o espetáculo é deprimente: continua cercado de jovens, mas pouco dotados para o esforço intelectual e que não passaram por boas escolas, muitas vezes originários das periferias das nossas metrópoles

    Olavo pode se ter tornado importante politicamente, mas intelectualmente é irrelevante.

    Os jovens promissores da outra época aos poucos foram se distanciando, ao perceberem que o ofertante não poderia dar conta da proposta, por um motivo muito simples: em razão de um princípio metafísico, do nada nada se gera e, portanto, ninguém pode dar o que não tem. Olavo não pode constituir uma “alta cultura” por ser ele mesmo um homem inculto

    Olavo costuma exigir daqueles que se inscrevem em seus cursos que escrevam um obituário ou necrológio, contando a própria vida à moda do Braz Cubas machadiano. O necrológio do Olavo já está sendo escrito: vai passar para a história como um astrólogo e como o Giovanni Gentile do governo Bolsonaro, sem deixar, do ponto de vista autenticamente intelectual, nem herdeiros nem bens a inventariar

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