BÜCHERVERBRENNUNG

QUANDO O CARINHA vinha com uma cópia de um artigo, minha prática em sala de aula era uma só: a sessão de humilhação pública e reprovação imediata do aluno. Não tinha segunda chance. Todos os alunos eram avisados, no primeiro dia de aula, que cópias não eram admitidas – plágio é crime, eu dizia, e comprova a mais completa incapacidade para se seguir na área acadêmica ou profissional. Numa faculdade onde trabalhei a coisa ficou tão séria que a direção teve de incluir uma regra específica: qualquer citação, de uma única linha que fosse, sem aspas ou sem referência bibliográfica, seria considerada plágio e o aluno, reprovado.

livros_fogueiraCheguei a reprovar aluno no primeiro bimestre por causa disso. Disse que ele não precisava aparecer mais nas minhas aulas e que, se no ano seguinte, na DP, caísse nas minhas mãos, estaria reprovado de novo. E de novo. E de novo.
Uma vez pedi um trabalho sobre a questão da poesia em Platão para minha turma de teoria da literatura. O prazo era de quatro meses. Especifiquei que queria no mínimo três páginas [aquela coisa: Times New Roman, corpo 12, espaço 1 ¹/², bibliografia etc.]. Uma moça apareceu com um trabalho lindo-lindo, seis páginas, bibliografia atualizada, grande, citações corretas, tudo muito bem construído e tal.
Acontece que o artigo havia sido copiado duma página na internet, onde fora publicado no ano anterior.
O artigo era meu.
A dita aluna não se deu sequer ao trabalho de ler O NOME DO AUTOR daquela pinóia, apenas copiou / colou / mandou ver. Ela veio com o papo de “pensei que era para encontrar alguma coisa sobre o assunto, não para escrever”. Mais ou menos a tal “tradução adaptada” do Senhor do Inep, Enem & Adjacências.
Pois que chegamos a isso, finalmente! Elevamos à condição de ministros, diretores, chefes de departamentos, não aquelas pessoas que têm fundo acadêmico, mas as que se comportam como alunos ainda incapazes de produzir alguma coisa válida para a academia partindo do que eles “acham” que é certo e verdade. Qualquer capiau semiletrado escuta que o que “acham” não vale um peido; que suas opiniões devem ser guardadas e trancadas lá no fundo do armário e que primeiro devem aprender a raciocinar, pesquisar e pensar, não nessa ordem, para, depois, apresentarem alguma coisa que mereça ser lida e estudada.
Murilo Resende é esse rapaz prepotente que não sabe ler nem pesquisar nem compreender aquilo que lê ou vê à frente do nariz. Sua opinião sobre Dostoiévski e sobre as interpretações de Mozart são a prova cabal disso: um mau leitor e um mau ouvinte que acredita que basta citar esses dois para dar-se ares de erudito e intelectual. Agora descobre-se que ele pageou um artigo de 1992, publicado numa revista acadêmica inglesa, sobre a Escola de Frankfurt. Usou como desculpa que fez uma “tradução adaptada”. É a mesma canalhice dos meus alunos citados nos primeiros parágrafos. Funciona que é uma maravilha para quem é analfabeto e iletrado e acredita em interpretações distorcidas de “aulas de filosofia” de Olavo de Carvalho.
Esse rapaz, na minha mão, teria sido reprovado no primeiro semestre do curso de administração e levado umas chibatadas em público. Foi elogiadíssimo pelo Olavo, claro, cuja única grande capacidade é reconhecer o valor dos puxa-sacos. Por isso os olavetes odeiam a academia: são obrigados a apresentar coerência e capacidade e formação e, queiram ou não, reconhecer que não valem grande coisa e que há chão a ser percorrido.
Como não possuem essa capacidade, saem por aí, como o senhor Resende, falando em “queimar livros” de seus desafetos.
Bem-vindos à Era da Estupidez.
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