O GRANDE CAÇADOR BRANCO

HEMINGWAY CONTOU, num texto publicado em Tempo de Viver, coletânea de artigos jornalísticos [o segundo volume, sobre as guerras pelas quais passou, é o Tempo de Morrer], sobre sua caçada a um leão devorador de homens no meião da África. Levou dois meses perseguindo o bicho até meter-lhe uma bala na testa. Hemingway era um “grande caçador branco”, contratado pelas tribos de África e autorizado pelos governos, para perseguir aqueles animais que causavam a morte de criações e pessoas. Hemngway gostava de caça e de touradas e de guerra.
Não chego a tanto. Na verdade, creio que seja incapaz desses atos heroicos. O último leão que vi foi no Simba Safári, SP, e o bicho não me pareceu assim tudo isso, nem um pouco monárquico, digamos, gordo e bem alimentado, deitado no meio da pista, bocejando. Touradas vi na tevê e são bonitas. A última guerra da qual participei tinha oito ou nove anos para desespero dos vizinhos [tenho certeza que foram eles que moveram uma petição pública para proibir a venda de revólveres de espoleta, malditos].
autonautas
Na verdade, minhas aventuras de caça, de sedução da taurimaquia e de guerras restringem-se aos livros. Ganho de Hemingway nesse queito: já passei 20 anos caçando um determinado livro, ou uns determinados livros, pois que foram, são, muitos mais do que um, apenas.
Às vezes, temos de deixar escapar a presa. Dói fundo, verdade, mas naquele exato momento ela não está ainda pronta para o abate ou, o que geralmente é o caso, eu não tenho dinheiro para comprar munição adequada. Foi o caso desse Os Autonautas da Cosmopista, livro escrito por Julio Cortázar e sua esposa Carol Dunlop sobre uma viagem Paris-Marselha.
A última vez que o vi disponível foi num sebo aqui no Centro de São Paulo por R$ 300,00. É uma edição, quase completamente extinta, de 1991 pela Editora Brasiliense. Uma beleza de projeto gráfico que reproduz os manuais de automóveis da época [não sei se continuam com o mesmo formato horizontal, aliás, não sei se ainda sei dirigir, como diria Sócrates, aquele]. Urrei de dor e desespero: aquela beleza de animal ali à mão, imaginei sua cabeça empalhada na minha biblioteca, olha, esse é o último Autonautas da face da Terra e ele é meu etc., deve ser esse o prazer mórbido de um caçador, não o de Hemingway, que matava por necessidade, mas esses outros meio tarados. Eu sou meio tarado.
O negócio é ter paciência, escutem o que lhes digo: a natureza, essa madrasta sacana, sempre reserva surpresas. Por algum motivo, o bichinho aparece na tua frente quando você menos espera. Claro que o caçador deve ficar alerta e seguir as pistas, e as pistas levaram-nos a um vendedor particular no Rio de Janeiro que tinha o exemplar, um tantinho sujo mas em perfeitas condições, por, em comparação aos outros zoos, míseros R$ 80.
Disparamos, Assunção​ e eu, no ato, bang-bang-bang-bang. De modo que, 20 anos depois, esse raro Cortázar / Dunlop está aqui, olhe só sua bela cabeça ali na estante.
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