A MORTE DE ÁGATHA

Não se trata de aperfeiçoar, de decantar, de resgatar,

de escolher, de livre-abitrar, de ir do alfa ao ômega.

Já se está. Qualquer um já está. O disparo está

na pistola; mas é preciso apertar o gatilho.

[Julio Cortázar]

Apenas às quatro horas contamos para Rosa que Ágatha morrera. Ela nos encarou um a um, em silêncio, com aqueles seus olhos vagos e terríveis, e voltou a fixar a parede cinza.

Reunimo-nos por muito tempo, como sempre fizemos, para definir qual o momento preciso para dar a notícia. Nunca sabíamos ao certo qual seria a reação de Rosa (e pior: quando ela ocorreria) e quais os efeitos catastróficos que desencadearia sobre nossa família. Discutimos, ponderamos, levantamos prós e contras, erguemos hipóteses, defendemos pontos de vista, sempre com a esperança de que seria possível, afinal, adiar o instante de contar que Ágatha, a nossa Ágatha, estava morta.

ilustra conto

Cogitou-se, inclusive, nada dizer (terá sido Jorge quem deu a ideia? ou Paula? eu, decerto, não fui, já cansado de tantos anos circunavegando o mesmo território), mas a posição inflexível de Flávia nos venceu a todos: era ela a arraigada defensora da verdade e da clareza, dizendo que era isso que caracterizava toda nossa estirpe. Silenciamos frente à dura realidade: seria, mesmo, cruel para com Rosa negar-lhe a informação. Afinal, o que mais restava? Acontecesse o que acontecesse, a notícia deveria ser dada. Mas quando, mas como?

A última crise ocorrera fazia três anos, por um descuido de Jorge. Estávamos à mesa de jantar (sempre levávamos Rosa de seu quarto cinza para a sala de jantar quando a mesa já estava posta, de modo a minimizar os riscos) quando Jorge, esquecido em sua felicidade, disse:

Fui promovido a gerente de contas e

A frase ficou ali, pendente de seus lábios junto com o fio de sopa. Flávia arregalou os olhos, encarou Jorge, feriu meus olhos com seu ar assustado, olhou para Rosa; Paula congelou sua colher a meio caminho da boca, sem estremecer; Ágatha soltou o talher, ergueu a mão sobre a boca e engoliu um soluço de choro; Jorge tinha ainda pendente a frase fatídica, o sorriso transformando-se em máscara trágica, a culpa estampada na face; eu baixei a cabeça, tentando encontrar na sopa algum caldo primordial que me explicasse as coisas e como evitar a catástrofe. Rosa parou de comer, olhou cada um de nós com seus olhos cheios de indiferença e voltou a jantar. Mas era tarde: agora era só uma questão de tempo.

Ninguém (com exceção de Rosa, é importante que todos os fatos fiquem claros) conseguiu terminar o jantar. Após a sopa, o pato dourado tão laboriosamente preparado por Paula foi esquecido, a salada verde, abandonada, o pudim de ameixas deixado de lado. Rosa, como sempre, devorou sua parte, no seu mutismo habitual, e esperou que a levássemos de volta ao seu quarto cinza, à sua poltrona cinza, sobre o tapete cinza, para que ali ficasse (sob a vigília que vem de 20 anos) quieta (mas que pode saber?) até a manhã seguinte.

Aquela noite, lembro-me bem, Flávia teve uma discussão terrível com Jorge enquanto eu tentava consolar Ágatha que soluçava sobre sua cama azul e dava socos no travesseiro creme, tentando desvencilhar-se da incompreensão.

O mal está feito, eu disse, não nos resta outra coisa…

Em toda nossa história com as crises, em todo o aprendizado em  como lidar com Rosa, por todos os quase 30 anos que percorremos juntos os seus vaticínios, nada era mais difícil do que a espera.

No começo, a reação de Rosa era quase que imediata. Uma frase, uma notícia (boa ou má), uma imagem, um som, despertava em Rosa essa espécie de transe e seu discurso. De início eram curtos, como quando papai entrou no quarto carregando um Jorge de dois anos que caíra e ralara o joelho e Rosa discorreu sobre os benefícios da água oxigenada por 40 minutos completos. Nunca soubemos de onde ela havia tirado aquelas informações (nunca soubemos, aliás, de onde ela tirava tudo aquilo: Rosa não lia; Rosa nunca estudou; Rosa não fazia ideia, mínima que fosse, de coisa alguma sobre o que falava em suas crises). Depois, com o passar dos anos (papai havia desistido e mandava, a cada três ou quatro meses, uma carta onde dizia estar tudo bem; nunca perguntou por Rosa e nós nunca lhe informamos), a reação foi se esparçando, lentamente, até que pensamos, um dia, com alívio quase alegre, que não haveria mais crise alguma. Engano: uma semana após notificarmos que Nicolau, o gato da casa, havia sido atropelado, Rosa discorreu sobre felinos por 83 horas e 27 minutos, para desespero de Flávia e de Paula que estavam responsáveis pelos cuidados de Rosa enquanto Jorge e eu trabalhávamos.

(Ágatha fazia o quê nessa época? As informações que acumulei sobre todo nosso caso familiar são tantas e tão complexas que acabo com esses lapsos de memória. Ou eu estou sofrendo de um mal oposto ao de Rosa, esquecendo aos poucos as coisas que efetivamente sei e tenho registradas como o cronista desse livro da revelação de nossa família?)

A frase de Jorge se revelava, então, um perigo para os dias seguintes àquele jantar, assim como a notícia da morte de Ágatha poderia despertar quaisquer memórias (se é possível chamar memórias a algo que não conhecemos) das mais imprevisíveis. “Promoção”, “gerente” e “contas” como apenas sugestões ínfimas para a fatal intempérie: quaisquer combinações dessas palavras, ou significados outros que não aqueles exatos pretendidos: o possível na nebulosa na qual Rosa mergulhava, oracular.

Anos terríveis. Um dia, após o banho, Rosa desencadeou a falar sobre perfumes e seus métodos de fabrico (passamos a usar sabonetes e produtos sem perfume a partir de então); noutra ocasião, após o telejornal, Rosa falou por mais de três dias sobre o processo de fissão nuclear e suas fórmulas (tiramos, óbvio, a tevê do seu quarto); deu uma aula insuportável sobre Chopin, seu método de composição, sua biografia (dois dias e meio; excluímos o rádio); discorreu sobre aquarelas, barcos, escolas pictóricas (retiramos os quadros das paredes e pintamos o quarto de cinza e trocamos os móveis por horríveis blocos soviéticos – o cinza, descobrimos, é a mais inócua das cores); falou por quase uma semana sobre as diferenças de tecidos, procedimentos de tingimento, entrelaçamentos de fios (a partir de então as suas roupas foram eximidas; a nudez de Rosa, com os anos, deixou de ser um incômodo). A frase de Jorge resultou numa lista interminável de datas, percentuais, taxas de juros e coeficientes financeiros referentes aos últimos sete anos, pelo menos, uma semana e três dias. O que poderia desencadear a morte de Ágatha?

Claro que procuramos médicos. Atendiam, todos, em casa (depois da primeira experiência, um tratado sobre administração hospitalar de oito dias, 15 horas e18 minutos, acreditamos ser mais seguro Rosa permanecer em casa). Quando muito balançavam a cabeça, sem compreender o mal que ali se nos impunha, insidioso, presente, prenhe, tentacular. Medicamentos pouco (ou nada) adiantavam, mesmo porquê o menor dos comprimidos, a mais simples aspirina, era fatalmente seguida pela imensidão das bulas.

As mulheres foram as primeiras afetadas. Os homens, afinal, tínhamos de garantir a sobrevivência da família. Mas ainda assim era uma solução insuficiente: mesmo com as três revesando-se nos cuidados e nas vigilâncias, a fina corda que as sustinham nesse infindável cotidiano de expectativas mostrava-se frágil: seus tons desafinavam, discussões explodiam nos piores momentos (ainda que qualquer momento se mostrasse pior: uma voz erguida um decibel que fosse poderia ser escutada por Rosa mergulhada em seu universo cinza), a tensão minava nossa convivência.

Primeiro Jorge largou o emprego para se dedicar a Rosa; poucos anos depois foi minha vez. Acreditávamos que apenas com nós cinco ali, com nossa presença na velha casa, com nosso silêncio de espectros, com a marca de nossa permanência insistente (ainda que muda, ainda que etérea), conseguiríamos domar aquela voz ancestral com seus vaticínios para nós incompreensíveis.

Não é preciso dizer que nenhum de nós se casou. Como explicar aquela sacerdotisa de olhos mortos, nua, mergulhada no cinza de sua cela monástica, isolada de qualquer convivência humana a não ser a nossa? (Chegamos a duvidar, um dia, de nossa humanidade?) Como levar para a casa um possível companheiro, uma mulher que partilhasse conosco desse destino? Nunca discutimos o assunto: nós sabíamos que a saída de um de nós daquela redoma, assim como a incursão de qualquer pessoa nos corredores tumulares em que vivíamos, era impossível e inapropriado.

Ágatha, a pobre Ágatha, tentou escapar desse destino, para horror de seu candidato a noivo (usava sempre uma bela gravata verde com detalhes, cactos talvez, amarelos): a sua presença à mesa, na hora do jantar (sete ou oito anos se passaram?), desencadeou uma crise imediata. Imagino o que o pobre Fernando sentiu e pensou ao se deparar com Rosa disparando um longuíssimo discurso sobre Maximiliano I, Imperador do México (talvez Fernando, que, óbvio, era mexicano, ficasse agradavelmente surpreso com o conhecimento da velha Rosa, não fosse sua nudez à mesa do jantar). Ágatha chorou, convulsa; sempre foi a mais frágil. E agora o que sua morte poderia desencadear?

Qualquer previsão (ou sua tentativa) é impossível. Contar a Rosa era nosso dever, e nos preparar para o espectro que se erguerá, não importa o tempo que leve, uma necessidade: Paula cuidará das refeições; Jorge, Flávia e eu vamos revezar nossa atenção, vamos perscrutar o oceano cinza em busca do menor sinal, da mais sutil ondulação que revele a chegada do leviatã (nosso temor é que tudo seja inútil, afinal). Mantemos, assim, o suspense de nossa existência entre o pó de nossa casa. Sim, era inevitável, por maior que fosse o desejo de silenciar. Sabemos o que nos espera: Ágatha sucumbiu. Cada um de nós a seguirá ao seu tempo. E a areia do tempo da voz de Rosa ecoará nos cômodos vazios da casa, entre suas paredes cinzas.

Depois de dois anos de meio buscando uma solução, às quatro horas da tarde informamos a Rosa que Ágatha morrera.

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2 comentários em “A MORTE DE ÁGATHA

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