CORTÁZAR SOBRE A TRADUÇÃO E UMA LEMBRANÇA PESSOAL

LENDO O VOLUME 2 das Cartas de Julio Cortázar, um dos meus escritores favoritos, me deparei com um trecho que me fez lembrar daquela polêmica besta, saída dos círculos olavetes, a respeito da tradução de Os Demônios, de Dostoiévski.

Diziam, dizem, que a tradução direta do russo, feita por Paulo Bezerra para a Editora 34, é má, ruim, péssima e canalha: Bezerra teria manipulado a tradução para que ela concordasse com sua ideologia etc. [Bezerra é comunista de carteirinha e estudou russo na Universidade de Moscou nos tempos soviéticos]. Diziam, dizem, que a tradução boa mesmo, de verdade, foi a feita por Rachel de Queiróz, do francês, o que me parece maluquice, afinal uma tradução de uma tradução afasta-se ainda mais do original.
Pois que li as duas, e a de Bezerra é muito superior. A mim me pareceu que Rachel de Queiróz traduziu um livro de autor francês, e não russo, aquelas frases longuíssimas e cheias de volutas, de idas e vindas, de vírgulas intermináveis – coisa de francês que, parece, tem verdadeira ojeriza à ordem direta e à sentença curta. Não sei: é impressão.
cartasMas aí leio esse trechinho de uma carta de 8 de maio de 1957 a Jean Barnabé [um amigo franco-uruguaio de Cortázar, acho que deve-se pronunciar Jean Barnabô, sei lá], que trata exatamente da tradução, ou melhor: da recusa de uma tradução para o francês do livro de contos Bestiário. A mim explicou alguma coisa:
“Creio haver-te dito na minha carta anterior – anterior à minha partida para a Índia – que levei [a tua tradução do] Bestiaire ao [editor] Caillois. Ele ma devolveu dizendo-me que as traduções lhe pareciam “demasiado apegadas ao original” (sic). Quando lhe pedi que me esclarecesse o que queria dizer, sustentou que você havia sido “demasiadamente fiel” em algumas coisas, afastando-se do francês para manter-se mais próximo do tom espanhol, do ritmo da frase etc. Creio que foi nesse momento que compreendi finalmente por que as traduções para o francês me parecem quase sempre muito distantes do original; evidentemente, gente como Caillois considera que o autor não importa grande coisa: a única coisa que conta é salvar a todo o custo o GRRRAANNDE estilo francês, a maneira francesa de dizer as coisas… ainda que com o risco de qualquer traição.”

E, mais adiante, uma frase que vem a calhar com a minha memória:

“Como lhe dizia acima, conheço muito bem os “retoques” [nas traduções] de meus colegas franceses. São capazes de fazer falar um personagem de Dostoiévski como se fosse Julien Sorel ou Rastignac.”

Talvez por isso aqueles senhores, tão vetustos e sábios, prefiram a tradução de Rachel de Queiróz à de Paulo Bezerra. Não é apenas uma questão política, de tudo imbecil [alguém consegue acreditar que alguém traduzirá uma obra imensa como Os Demônios para transformá-la em panfleto político de esquerda? Em um país de maus e porcos leitores que mal e mal se achegam a Paulo Coelho?]. Mas esse é um mal nosso, brasileiro. Ainda estamos presos ao “francesismo”, ao nariz empinado e empoado de uma academia velha e vetusta. Ainda que Olavo de Carvalho e seus seguidores critiquem a academia duramente, dizendo que é de todo inútil, defendem com garras afiadas e veneno na língua um estilo de escrita que cheira a mofo e recheado da retórica mais vulgar e sem sentido: o pior do pior de Camilo Castelo Branco para baixo.
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