A SEGURANÇA DOS IMBECIS

NÃO CONSIGO DEIXAR de sentir horror. Saí das salas de aula em 2010. Havia seus problemas, claro, mas nunca enfrentei neuroses muito graves. Às vezes um ou outro aluno que “não concordava” com o que eu dizia, e ok, tudo bem, tentava mostrar que não era eu quem dizia, mas tal e tal autores que estudávamos.

LolitaHá pouco mais de um ano uma colega foi processada e demitida de uma universidade em que trabalhava há 30 anos, acusada de racismo. Seu crime: usar Gilberto Freyre em aula. Alunos de um certo “Coletivo Enegrecer” fizeram escândalo, sentaram o cacete, berraram, moveram mundos e fundos contra a professora. Aposto que nunca leram Freyre.
Ontem, num grupo de leitores de livros, comentaram o Lolita, de Nabokov. Apenas escrevi que era uma obra obrigatória, mas devia-se tomar cuidado para não cair na facilidade de ver nele um romance sobre pedofilia [o que não deixa de ser] e ver em Humbert-Humert um ser cruel e na jovenzinha Dolores a encarnação da inocência; Dolores, Lola, Lolita, é uma menina manipuladora e que sabe muito bem o que faz. Sem contar que HH conta sua história desde a prisão, não por acaso que o subtítulo do romance é “Uma confissão”. Foi o quanto bastou. Uma moça chamou-me de “pedófilo” e veio com o papo da inocência da infância etc., aquela coisa do Rousseau do Homem ser puro e a sociedade o corrompe. Bobagem.
Não adianta explicar o óbvio, que Lolita é um romance e deve ser lido como tal, descolado da realidade imediata. Não adianta dizer que esses leitores leem mal. Não conseguem mais distanciar a realidade da ficção, pois vivem em uma ficção confortável cheia dos preconceitos. Uma outra moça disse que “Lolita é um romance perigoso”. Encafifei com esse “perigoso”. Verdade que não chegou a defender a censura, mas está quase lá.
Não respondi, deu tédio. Teria de alinhar todas as obras “perigosas”, desde Aristófanes, passando por Madame Bovary e Oscar Wilde, sem contar os russos perigosos e as fogueiras nazistas. Teria de perguntar se ela não considerava a festinha funk também perigosa, com suas meninas de 12 anos [a idade de Lolita!] dançando sem calcinhas para transar com um sem-número de carinhas.
Acontece que me peguei pensando o que seria uma sala de aula hoje. Creio que seria acusado de “doutrinador agente do marxismo cultural” por usar o povo da Escola de Frankfurt; por outro lado, seria acusado do mesmo racismo de minha colega do parágrafo aí de cima por usar o mesmo Gilberto Freyre, ou de “machismo” por usar peças de Shakespeare [tem um movimento feminista forte, nos USA, que quer proibir Shakespeare nas universidades; tem outro, de naturebas que querem proibir Moby Dick]. Há uma farta distribuição de rótulos para todos os gostos, é só pegar o que mais lhe agrada para atacar quem te ofende.
Não é uma questão de “direita” ou de “esquerda”. A coisa passa longe da política. Os leitores estão rasos, superficiais e prendem-se aos seus próprios preconceitos, agarram-nos, apegam-se a eles, dormem de conchinha, dão-lhes beijos apaixonados: os preconceitos são suas segurança, pois um preconceito é a segurança do imbecil.

UM TRECHO DE EÇA

RESOLVI RELER o velho Eça de Queirós, antes que venha um povo berrando “ah mas é anticlerical”, como já escutei mais de uma vez falarem de Umberto Eco.

maiasÉ verdade: Eça É anticlerical. Nem por isso deixa de ser um gênio do humor. Logo ali no comecinho, capítulo 3, quando descreve o Velho Maia solitário no Ramalhete, lemos isso:

“Este pesado e enorme angorá, branco com malhas louras, era agora (desde a morte de Tobias, o soberbo cão são-bernardo) o fiel companheiro de Afonso. Tinha nascido em Santa Olávia, e recebera então o nome de Bonifácio: depois, ao chegar à idade do amor e da caça, fora-lhe dado o apelido mais cavalheiresco de d. Bonifácio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesiásticas, e era o Reverendo Bonifácio…”

SANTO AGOSTINHO, UMA BIOGRAFIA

Tenho uma memória afetiva de Santo Agostinho de Hipona. Estudei no Colégio Santo Agostinho entre a 5ª série e o 3º colegial e fiz amizades que perduram e sobrevivem a esses mais de 30 anos. Professores que lembro: Nikolai Sorokin, falecido há poucos dias, de física [“sou cidadão soviético!”, disse uma vez]; Faro, de história [marxista]; Waldir e Nelly, de português e literatura [Nelly, mãe do Marcos, amigo presente]. E os padres, claro: pe. Miguel santo agostinhoLucas, diretor; pe. Luna, parapsicólogo; pe. Chiquinho, o terror [castigava os alunos mandando-nos copiar o Hino Nacional; a pena dobrava a cada escorregadela; meu recorde foram 48 cópias, a mão, um doce, eu era um doce]. Mas a memória afetiva vai além: conheci um pouco da vida de Santo Agostinho graças a uma peça que era encenada todos os anos, insistentemente, e escrita por um dos padres, já não lembro qual. A peça era ruim. Mas soube ali de sua relação amorosa, de seu paganismo, de seu filho, de sua mãe, Mônica, de sua fuga para Roma, de sua conversão, de seu bispado em Hipona. Um dia encontrei as Confissões numa edição da coleção Os Pensadores, aquela azul e grandona, de 1973. Tinha essa coleção completa; meu pai, que trabalhava na Abril, levava os livros para casa. Não lembro quantos anos eu tinha quando resolvi enfrentar o livro; era muito jovem, jovem demais para entender alguma coisa. O que lembro é que ia lendo e procurava um padre [Miguel Lucas?] para ver se eu entendia aquele negócio. Paciente, ele explicava alguma coisa; desisti da leitura, pedreira demais para um molecote. Fui ler as Confissões só depois da faculdade, já com meus 23 anos, por aí.

De modo que esse Santo Agostinho, uma biografia, de Peter Brown é quase um reencontro. Essa edição é uma reimpressão da primeira, de 2003, por aí, a partir da terceira edição inglesa. O Autor deixa claro que não fez alterações profundas no seu estudo desde a primeira versão dos anos 1960 — e que muita água rolou sob a ponte dos estudos agostinianos desde então, muitos manuscritos foram encontrados, muitos dados novos revelados, muitas teses escritas com outras interpretações; mas seu livro tem o valor de ser um monumento relativo a um homem [um Santo] que marcou o término do Império Romano e iniciou o que conhecemos por Idade Média, de modo que Santo Agostinho é representativo de um tipo de inteligência que mescla todo o saber dos antigos latinos [Agostinho não lia grego; sua tradução da Bíblia foi feita por solicitação a São Jerônimo, e se tornou clássica ainda hoje], literatura inclusive e principalmente, com aquilo que se tornará a tradição cristã até nossos dias.

Peter Brown nos leva a conhecer Aurélio Agostinho desde a sua infância em Tagaste, África, onde nasceu em 354. Filho de uma devota cristã, Mônica, e de um pai pagão, que pretendia que seu filho seguisse a trilha do conhecimento intelectual, única forma de conseguir algum destaque numa sociedade marcada pelo favoritismos das grandes famílias imperiais. Os casamentos mistos eram comuns na sociedade africana, ainda que existissem conflitos não tanto com os pagãos [a depender apenas da postura do Imperador, mas à época de Agostinho as lutas internas contra o cristianismo já haviam esmaecido], mas com os maniqueus — seita que defendia a duplicidade do espírito e que o agente do Mal fora o criador da carne e do mundo, enquanto Deus, puro e Bom, fora o criador apenas das coisas elevadas, do espírito etc. Essa é uma disputa da qual Agostinho participará ativamente ainda bastante jovem [17 anos], quando viaja para Cartago a fim de estudar retórica, área que lhe garantiria acesso à profissão das leis e ao estudo da filosofia. Torna-se maniqueu, relaciona-se com uma mulher de condição social inferior, tomando-a por concubina, convive com ela, tem um filho. Não vou detalhar todas as ações de sua vida, mas apenas que o conflito com sua mãe era constante e ela insistia em que ele se convertesse ao catolicismo e abandonasse as ideias hereges, assim como abandonasse a sua mulher e se casasse com alguém que fosse digna. Relacionamentos como o de Agostinho eram comuns: tomar uma mulher “inferior” e conviver com ela para depois deixá-la para assumir um casamento “digno” era comum [assim como mandar a primeira mulher para longe, para que não se tornasse um incômodo; além disso, o homem era considerado solteiro após a separação, enquanto que a mulher abandonada não podia casar-se novamente].

Agostinho queria dedicar-se aos estudos: tinha uma visão de filosofia que exigia o recolhimento e afastamento da sociedade, graças às leituras de Sêneca. Nas Cartas a Lucílio, Sêneca tenta a todo o custo convencer seu jovem correspondente a abandonar a vida política no Senado romano e recolher-se numa quinta para se dedicar apenas à filosofia e evitar a multidão, ocupando o tempo com coisas realmente úteis. Há um trecho de Sêneca que resume bem esse espírito:

“Convence-te de que as coisas são tal como as descrevo: uma parte do tempo é-nos tomada, outra parte vai-se sem darmos por isso, outra deixamo-la escapar. Mas o pior de tudo é o tempo desperdiçado por negligência. Se bem reparares, durante grande parte da vida agimos mal, durante a maior parte não agimos nada, durante toda a vida agimos inutilmente. Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte!”

Brown não cita esse trecho em especial, mas a ideia de que tudo flui e se esvai, tudo fenece, tudo é inútil, tudo tem um fim é uma marca do jovem Agostinho. O maniqueísmo não oferece as respostas a esse drama, apenas mergulha o homem ainda mais em sua condição perecível e na consciência de finitude. O resultado é a angústia. Pois que Aurélio Agostinho é um jovem angustiado, sedento por saber, necessitado de um fundamento que justifique a sua vida. Viver, afinal, é aproveitar cada momento, mas esse hedonismo acaba por se revelar insuficiente e ainda mais frustrante. Sua fuga para Roma [parte à noite, deixando sua mãe — que pretendia segui-lo para onde fosse, uma mãe dominadora], em busca de uma carreira, tem esse duplo motivo: encontrar um sistema filosófico que lhe seja suficiente e encontrar um estilo de vida civilizado que a África não pode oferecer.

É em Roma que ele encontra a obra de Plotino, filósofo neoplatônico e autor das Enéadas. Plotino é o passo fundamental para Agostinho se aproximar do conceito de um Deus único indivisível: é a ideia de Uno de Plotino que faz com que se afaste do maniqueísmo e sua dualidade da Natureza e encare as falhas desse conceito. Não por acaso ainda hoje encontramos historiadores da filosofia e analistas que veem em Agostinho apenas um filósofo que adaptou o platonismo e seu mundo imanente ao cristianismo via Plotino, assim como o fazem com Tomás de Aquino em relação a Aristóteles. Não é verdade, claro, e é um reducionismo teórico que visa a facilitar o entendimento de suas obras: Agostinho, ao encontrar o conceito de Uno, ao mesmo tempo que toma contato com o bispo de Roma, Ambrósio, e seus sermões moralistas, abre sua visão de mundo e compreende que aquilo que ele buscava na filosofia só poderia ser explicado a contento pelo cristianismo católico. Há a história de sua conversão segundo a qual estava entediado no quintal de sua casa quando escuta uma criança cantar “toma e lê, tome e lê”; ao que ele toma o livro sobre a mesa ali ao lado e abre na Epístola de Paulo aos Romanos [13: 13-14: “Andemos honestamente como de dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não vos preocupeis com a carne para não excitardes as suas cobiças”]. É sua conversão.

Essa a marca que leva Agostinho a um novo caminho — o da base filosófica e da obra de Deus, abandonando sua concubina e formando um pequeno grupo de amigos para trilharem esse caminho. Atinge assim um objetivo, o do recolhimento e do estudo, ou pelo menos é o que esperava. Sua inteligência e sua capacidade retórica imediatamente o levam a enfrentar uma série de polêmicas: inicialmente contra os maniqueus, condenando suas ideias; depois contra os seguidores de Pleágio, que acreditavam que o homem é o único responsável pela salvação, não dando lugar para a Graça de Deus, além de negar a ideia de pecado original; contra os Acadêmicos, que buscam apenas no conhecimento humano a possibilidade de encontrar a verdade. Agostinho torna-se o fundador de uma doutrina e dos dogmas que são a base da Igreja até hoje.

Agostinho foi mais do que um doutrinador e mais do que um pensador cristão. Os seus textos sobre a Trindade [De trinitate], sobre a Virgem Maria, sobre os cuidados cotidianos dos cristãos [O cuidado devido aos mortos; O mestre; O livre-arbítrio; A doutrina cristã; A primeira catequese etc.], seus comentários sobre os Salmos [três volumes na edição brasileira, pela editora Paulus] são uma catedral erguida para o louvor a Cristo. No entanto, sua obra vai ainda além do caráter doutrinário. A base sempre será o cristianismo, é certo, mas Agostinho lança uma nova forma de explicar o mundo e o modo como o homem nele se insere: está preocupado com os desejos, com o vir-a-ser, com a busca do homem por um sentido, com a permanência e o localizar-se num mundo difícil e muitas vezes cruel. Abre perspectivas de interpretações diversas das ações humanas, justificando a guerra contra os hereges, e chegou a defender a purgação pelo fogo — algo que irá, séculos mais tarde, redundar nos processos inquisitoriais. Mais do que isso: Agostinho foi um psicólogo que tentou compreender o homem em seu meio, seus desejos, angústias, espantos.

É nesse núcleo psicológico que Agostinho mergulha quando escreve suas Confissões, um retrato que pretende ser realista, uma autobiografia de sua conversão. Porém as Confissões vão além disso: é um relato que esmiuça as menores ações e encontra uma raiz do Mal no simples ato de roubar peras do quintal do vizinho. O livro foi escrito para ser um exemplo, como aquelas histórias inseridas nos sermões medievais para que a palavra bíblica se aproximasse da experiência do fiel. Um exemplo, mas exemplo de erros a serem evitados, das dificuldades encontradas no caminho reto da justiça, dos desvios quase inevitáveis que um homem convertido encontra, dos dilemas morais de um passado que, ainda que haja arrependimento, está presente a todo o momento para nos lembrar da fragilidade e pequenez de nossa fé. E um exemplo maior: o da Esperança que, junto com a Fé e a Caridade, formam essa trindade de Virtudes Teologais que alcançamos apenas e tão-somente pela Graça.

A biografia trata cada obra de Agostinho de Hipona, explicitando a sua forma, o tempo de sua escrita, os principais conceitos, as fontes da tradição filosófica às quais são devedoras. Esmiuçar aqui, nessas breves notas, cada um dos capítulos é excessivo e escapa da minha intenção, que é apenas a de apresentar um livro para possíveis leitores. Não posso, no entanto, deixar de lado uma reflexão sobre A cidade de Deus, obra capital na produção agostiniana e para todo o Ocidente. Somos frutos diretos da concepção do Santo de Hipona e nossa visão em busca da transcendência encontra-se toda ali, explicada, revelada, detalhada.

N’A cidade de Deus Agostinho parte do platonismo, isto é, da ideia de uma existência de uma realidade verdadeira superior, fixa e imóvel, perfeita, que é espelhada de modo imperfeito em nosso mundo. Se para Platão o Mundo Imanente [ou das Ideias] é a perfeição, esse nosso mundo em que estamos atolados não passa de uma sombra, uma cópia malfeita da perfeição ideal. Um mundo de sombras que facilmente nos engana, já que não temos naturalmente a percepção do que é perfeito — do Bom, do Belo e do Verdadeiro, para usarmos os conceitos de Platão. No cristianismo esse espelhamento imperfeito, ou negativo, se dá por não termos a Graça e escaparmos da obediência aos mandamentos de Deus e daquilo que Jesus nos ensinou. Estamos presos num mundo que por si só é sem esperança e obscuro. No entanto, mesmo dessa imperfeição é possível se extrair exemplos e ensinamentos: basta saber olhar para o mundo e perceberemos que nele há maravilhas que revelam a Verdade divina e Sua vontade. O mundo é, diz Agostinho, um livro a ser interpretado — e nesse mundo, criado pela Vontade de Deus, tudo é possível.

Um dos rumos para a compreensão da Cidade Celestial, a Jerusalém Celeste prometida aos escolhidos, no livro do Apocalipse, é saber olhar para o nosso redor e nele encontrar sinais que são a revelação da Vontade Divina. Na Natureza tudo é possível, e por essa razão Agostinho acredita na existência de seres fabulosos: centauros, quimeras, unicórnios, atrópodes, melusinas, salamandras, como descritos por Plínio o Velho em sua História natural. A existência de monstros é possível, afirma, na medida em que eles servem para ressaltar a beleza da criação divina; e mais: as aberrações são permitidas para que se eleve a correção; o Mal existe para que se abrace o Bem. Assim, o Mal não existe em si e por si, mas relativo apenas à supremacia do Bem. Agostinho vai além: o Mal não passa da ausência do Bem em determinado momento, como a cegueira é um mal pela carência da visão, que é um bem por si mesmo. A natureza, assim, é passível de ser interpretada como a Bíblia — e em diversos e complementares níveis.

Aliás, Agostinho escreve aquilo que é um verdadeiro tratado de interpretação de texto. Defende que existem quatro níveis possíveis para se interpretar o texto bíblico. O primeiro é o literal, como vemos ainda hoje em muitas igrejas; o segundo, histórico, que depende do conhecimento da história do povo eleito, da sua escravidão primeiro sob os egípcios e depois sob Nabuconosor, da aparição dos profetas em seu momento etc. até a vinda de Cristo e Sua mensagem — para se compreender as profecias do Apocalipse e do fim dos tempos e a Salvação dos fiéis. O terceiro nível é simbólico, ou metafórico, de modo que um texto pode [e deve] ser lido não apenas em seu caráter literal: a mensagem de Cristo também é encontrada nas metáforas — ou principalmente como metáforas — a serem entendidas num exercício de exegese. O quarto nível, o mais complexo, é o teológico, que demanda estudo de todos os níveis anteriores, mais a filosofia e a teologia. A leitura da Bíblia, afirma, pode se dar em um único nível, mas isso é empobrecer seu sentido. A melhor forma de interpretação é utilizar dos quatro modos de leitura, de forma que se consiga compreender a fundo a mensagem oferecida pela Revelação. O que Agostinho [a essa altura já bispo de Hipona] faz é tomar a retórica que estudou nos autores antigos latinos e aprofundá-la para a realidade da cristandade.

Impossível tratar de todos os temas dessa biografia intelectual. As qualidades do livro são diversas, da clareza do estilo e profundidade da pesquisa à forma clara como Peter Brown explica os conceitos agostinianos. Santo Agostinho de Hipona é mais do o fundador de uma nova forma de pensar o Cristianismo e a Igreja: ele faz uma análise psicológica do homem e sua essência, compreendendo as suas dificuldades e limitações, ainda que carregue a ânsia de ser completo, o que é impossível. Para encerrar esses comentários, ressalto apenas mais um conceito agostiniano: o de tempo.

Afirma Agostinho que existem dois tempos: o tempo divino, simultâneo, e o tempo humano, linear. O tempo de Deus é simultâneo porque para Deus não há passado ou futuro: Sua Onisciência reduz tudo a um agora constante e eterno, de modo que não há diferença entre passado, presente e futuro; Deus já sabe tudo — ele não prevê o porvir; o amanhã já acontece nesse exato instante. Como o homem é criatura de Deus, partilha com Ele algumas qualidades, assim como para Platão o nosso mundo sensível partilha de representações imperfeitas das Ideias. O homem é um ser inserido no tempo, mas de modo cronológico e sequencial. Ao homem não é dado conhecer o porvir; ao homem só é dado ter consciência do seu passado histórico e de seu presente; ao homem é dada também a vontade de ser [um vir-a-ser natural, construído pelas escolhas que fizemos] até um determinado fim que, se tudo feito a contento, visa à salvação. Deus encaminha o homem para a salvação por meio da palavra revelada, é certo, mas ainda assim o livre-arbítrio pode nos levar para diferentes caminhos.

A questão é que partilhamos com Deus a noção de tempo. Se não nos é possível viver no presente as experiências do passado, assim como não podemos presentificar aquilo que desejamos para nosso futuro, temos dois recursos que possibilitam essa experiência divina. Um é a memória — e é através dela que conseguimos reviver experiências, boas e más, do passado. Todos vivenciamos isso: um perfume sentido ao acaso, ou uma determinada música que escutamos, remete-nos a algum momento de nossa vida: um grande amor, por exemplo, ou a perda de um ente querido. O prazer ou a dor que sentimos não têm a mesma intensidade daqueles do momento vivido — mas sentimos uma alegria e uma tristeza bastante presentes. O mesmo se dá quando imaginamos um futuro possível: podemos sentir prazer com a expectativa de uma idealização profissional ou familiar, não importando se ela será frustrada ou efetiva. A nossa mente, a nossa inteligência, são capazes de nos oferecer essa mínima parcela do tempo divino. Acredito que a discussão sobre a temporalidade do homem é uma das chaves para toda a obra de Santo Agostinho.

A frase essencial do pensamento agostiniano é: intellige ut credas, crede ut intelliges, “creio para compreender, compreendo para crer”. A Fé não é ato gratuito nem sequer revelação divina gratuita; a Fé é exercício desse instrumento divino que é nossa inteligência. Toda a filosofia de Santo Agostinho é a busca incessante do uso da inteligência a serviço da Fé. Assim — Peter Brown demonstra nessa belíssima biografia —, Santo Agostinho de Hipona inaugura uma nova forma de pensar. É um filósofo moderno, no sentido absoluto da palavra “modernidade”.

AS BATALHAS DE ANTONY BEEVOR

Há inúmeros livros sobre o período da II Guerra Mundial, sob as mais diversas ópticas, desde a história do conflito até particularidades muito específicas a respeito dos comportamentos dos nazistas. Em uma pesquisa rápida, encontrei temas como “as mulheres de Hitler”, “a doutrina secreta dos nazistas”, “os filhos dos oficiais nazistas”, “o holocausto alemão”, “a numerologia e o nazismo”, além daqueles já sabidos como O papa de Hitler. Existe revisionismo histórico para todos os gostos. Um especialmente assustador é o que nega o Holocausto judeu afirmando que aquelas fotos de homens e mulheres esquálidos e famintos, as pilhas de cadáveres, as filas para as câmaras de gás não passaram de um recurso médico: os judeus estavam doentes e os nazistas construíram não campos de concentração, mas gigantescos hospitais a fim de salvar judeus [!]; as fotos não passam, assim, de manipulação dos Aliados para responsabilizar os pobres e inocentes nazistas… Chegam a culpar os aliados pelos bombardeios, que teriam assim interrompidos o abastecimento de remédios e comida fornecidos pelos nazistas. Há louco para tudo nesse mundo. O pior é encontrar ainda hoje, no Brasil, quem pense exatamente assim.

BEEVOR

Não é o caso de Antony Beevor. É historiador sério e profundo. Formado pelo Winchester College e pela Academia Militar de Sandhurst, considerado um dos mais importantes historiadores contemporâneos, discípulo de John Keegan [autor de Uma história da guerra, publicado no Brasil pela Companhia das Letras], Beevor tem obra vasta.

Além do A Segunda Guerra Mundial, obra abrangente sobre o confronto, é autor de uma série de livros que tocam em batalhas específicas: Stalingrado, A batalha de Espanha, A batalha de Creta, Berlim 1945 e agora esse A batalha das Ardenas. Ele tem outro livro curioso, esse sobre espionagem, O mistério de Olga Tchekhova, que trata da sobrinha-neta de Tchekhov, atriz e espiã russa na Alemanha nazista. É um ponto fora da curva de suas pesquisas, mas nem por isso é um mau livro.

A preocupação de Beevor não é o panorama dos conflitos, nem tentar encontrar sentidos outros que serviriam de pano de fundo aos problemas ideológicos entre o Eixo e os Aliados. Ele procura, em ampla documentação – cartas, notícias, mapas, gravações, depoimentos, documentos secretos da época – reconstituir cada movimento das batalhas que relata. São vivas – ou melhor,  vívidas – na medida em que, além de historiador bem fundamentado, Beevor é um escritor, qualidade rara entre os acadêmicos.

Stalingrado é uma leitura que nos enche de horror. O impacto que tive com esse livro só foi similar quando li Vida e Destino, de Vassíli Grossman, romance que retrata o período stalinista, justamente comparado com Guerra e Paz. No entanto, se o livro de Grossman choca pela perfídia ideológica na qual se baseia a narrativa, o livro de Beevor nos apavora pela crueza dos fatos descritos. Conseguimos acreditar em Grossman: literatura serve para isso, para nos convencer, a verossimilhança aristotélica; mas acreditamos em Beevor apenas por sabermos que tudo aquilo é a realidade, cada movimento de cada batalhão foi pensado para causar determinado efeito, acreditamos em Beevor porque sabemos o número de mortos em Stalingrado.

Berlim 1945 descreve os momentos finais da Alemanha nazista, Hitler neurótico preso em seu bunker emitindo ordens irrealizáveis. Há outra obra interessante sobre esse momento, No buker de Hitler, de Joachim Fest, também biógrafo do ditador, mas seu objeto é outro, complementar ao de Beevor: enquanto Fest analisa e descreve os movimentos internos no bunker, Beevor narra a aproximação do exército russo, rua a rua, casa a casa, até a derrocada final do nazismo.

A batalha de Espanha tem como objeto a Guerra Civil Espanhola [1936-1939], com a participação de agentes soviéticos e alemães. Foi um verdadeiro laboratório, um prelúdio à Segunda Guerra. Mais uma vez, a preocupação de Beevor é técnica. Não romantiza, não se preocupa em encontrar quem estaria com a razão. A História não se dá a isso, mas apenas à análise dos fatos. Comparando mais uma vez com a literatura, temos Por quem os sinos dobram, de Hemingway, que ressalta o heroísmo e o romance amargo da resistência comunista contra os fascistas de Franco. O capítulo sobre Guernica, em A batalha de Espanha é das coisas mais duras e tristes que já li.

Há alguns meses a editora Crítica lançou A batalha de Ardenas, último esforço de Hitler para reverter o quadro catastrófico que seu exército vivia: tendo perdido em Stalingrado, os russos avançando sobre Ucrânia, Polônia, Checoslováquia e aproximando-se de Berlim, ao mesmo tempo que o exército americano, junto com as forças britânicas e a resistência francesa [mais alguns soldados de De Gaulle], expulsa os nazistas de Paris, Hitler ordena que se defenda a linha Sigfried “até o último homem” e assim se garanta a reconquista de Paris. Além dos movimentos das tropas e dos planos de ação dos exércitos, Beevor relata os conflitos internos entre os comandos dos diversos exércitos aliados.

É uma série de livros fundamentais para quem tem interesse na II Guerra Mundial. Não se lê de uma tacada só. Beevor, militar, é técnico demais na descrição dos movimentos, o que obriga o leitor a consultar os mapas reproduzidos nos volumes, o que garante avisualização mais realista e próxima dos fatos estudados. Quem se interessa pelo tema, Beevor é autor obrigatório.

TRÊS PECHINCHAS

É UM PERIGO morar ao lado de um sebo.

No caminho para o barbeiro [na verdade não tão no caminho assim: fica alivros_coruja uns cem metros mais adiante e do outro lado da av. Jabaquara], tem o Estação Coruja. É um sebo honesto, com preços bacanas e encontro coisas por menos de dez reais. Olha só:

– Borges, Outras Inquisições, novinho, novinho;

– Agenor Soares de Moura, À Margem das Traduções, uma coletânea de artigos dos anos 1940 publicados em jornais sobre as traduções e as escolhas feitas pelos tradutores; e

– Thomas Parkinson, W.B. Yeats – The Later Poetry, velhinho mas bem conservado.

Para terem uma ideia, o sobre Yats mais o sobre traduções saiu a 15 mangos. O Borges foi mais caro, vintão.

Não, livro não é caro.

AUMENTA O ACERVO DA BIBLIOTECA MUCCILLO-ULANIN

LIVROS_DENILSON

O AMIGO Denilson, feliz proprietário da Livraria dos Bibliófilos cujo acervo é para lá de supimpa, veio aqui em casa e, entre o dedo de prosa, trouxe essas belezinhas agora na Biblioteca Muccillo-Ulanin:

– A Correspondência entre Mário de Andrade e Manoel Bandeira;

Larousse das Civilizações Antigas;

– Plutarco, Da Malícia de Heródoto, traduzido pela professora Maria Aparecida de Oliveira Silva;

– João de Barros, Cartinha com os preceitos e mandamentos da Santa Madfe Igreja, com o fac-símile do original do século XV;

– essa bela coletânea de estudos sobre A morte na Idade Média, por Herman Braet e Werber Verbeke;

– Joseph Franl, Pelo prisma russo, ensaios sobre literatura e cultura;

– Serge Gruzinski, As quatro partes do mundo, história de uma mundialização;

– Henri Pirenne, Lembranças do cativeiro na Alemanha, março de 1916 a novembro de 1918;

– Johann Gottfried Herder, Plástica;

– Assaad Zaidan, Letras e História, mil palavras árabes na língua portuguesa.

Amigos, papos e livros. Não há nada melhor.

ENTREVISTA COM O ESCRIBA

Há um ano o amigo Murilo Mendes fez essa entrevista comigo. Murilo é bom amigo e escritor de primeira qualidade. Vale a pena conhecer o que escreve e bater um papo: basta clicar aqui. Segue a entrevista:

Não sei mais como nos conhecemos. Um belo dia, éramos amigos na rede. Fábio impressiona pela quantidade de livros que leu. E isso é coisa que se percebe não apenas porque ele fala de livros, o que muita gente faz na internet, inclusive este cronista do sertão. Fábio mata a cobra e mostra a cobra morta. Tem quase duzentas resenhas de livros que leu ao longo do tempo, todas muito interessantes e originais. Ele já deu aulas, trabalhou com publicidade e, como me disse in box, “comete” alguns poemas e contos. Fábio gosta de uma graça. Uma prova? Perguntei se ele tinha gatos em casa. Ele me disse que tem mais de um. A última, Svetlana, sendo uma gata de cor preta, ele diz que entrou pelo sistema de cotas.
Pós graduado em literatura na PUC de Sampa, ele se diz do contra e é contra “inclusive contra quem é do contra”.
Fala aí, Fábio Ulanin.
E obrigadão pela entrevista.

1)
Entrevistador – Fabio, seu sobrenome. De onde vem o sobrenome? Seus antepassados eram de onde?

Fábio – São dois sobrenomes, ou eu queria que estivessem registrados os dois. Tenho o Ulanin, que é da família do meu pai, João. Meu avô, Kosma, era de uma vila na fronteira entre a Rússia e a Polônia. Não sei o nome da vila, mas a geografia lá no leste é uma zona danada: às vezes estava em território polaco, logo depois ia parar nas mãos dos russos. Minha avó, Elizaveta, era ucraniana. A Ucrânia é outro problema: a Rus, origem da Rússia, estava bem ali, então os russos sempre consideraram a Ucrânia parte essencial do seu Império desde os tempos de Pedro o Grande até hoje. Vó Eliza era camponesa. Vieram fugidos da Revolução. A vó Eliza fugiu por causa da fome, o Homolodor. Ela me contou que viu cenas de canibalismo quando criança.
A linha dos Kovalescki, por parte de mãe, era de poloneses, de Varsóvia e Cracóvia. Meu bisavô fugiu de lá, a Polônia uma ruína depois de tantas guerras. Diz a crônica familiar que minha trisavó excomungou meu bisavô no porto do rio Vístula. Há vários Kovalescki espalhados. Alguns foram para os USA, outros para o Sul do Brasil. Os nomes variam: Kowalescki, Kowalski, Kovaleski, Kovalscy, mas é uma única origem. Pesquisei um pouco as origens dos polacos. É controversa. Tem uns nobres antigos lá na Polônia, mas tem também uns judeus com o mesmo sobrenome, coisas do Leste europeu. Mas os Kovalescki mais importantes ainda são aquele imediato da USS Enterprise e o pinguim de Madagáscar.

2)
Entrevistador – Você é uma daquelas pessoas que passam a impressão de que já leram tudo. Suas resenhas são longas e muito bem feitas. Quando começou o interesse pela literatura. Você lia desde pequeno? Fale aí da sua paixão, a literatura.

Fábio – Li e leio bastante, menos do que gostaria. Leitura é um prazer, antes de obrigação, e sempre tentei mostrar isso para meus alunos, nos 20 anos de professor. Mas quando criança não gostava de ler. Achava as coisas da escola chatíssimas. Odiava Tistu, o menino do dedo verde, e ainda hoje consigo imaginar torturas terríveis que eu faria com esse moleque insuportável. João Ulanin trabalhava na Abril e sempre trazia gibis [Disney e Turma da Mônica] e coleções. Um dia ele largou em cima da mesa um livro, 20.000 Léguas Submarinas, da Coleção Grandes Aventuras. Ficou dias no mesmo lugar. Não me obrigou a ler, não disse nada, o velho João. Um dia, sem brincadeiras de rua, sem nada para fazer em casa, peguei o livro e li a primeira frase. Bastou. Li o bicho numa tarde. Depois li de novo. Depois de li de novo. Depois li de novo. Umas dez vezes seguidas. No outro dia, pai Ulanin chegou com uma caixa: 25 volumes, a coleção completa.
A leitura me acompanha todos os dias, nem que sejam poucas páginas. Leio de tudo, de best-seller aos clássicos, passando por filosofia, história, biografia. Hoje escrevo pouco, bem menos do que desejo, mas acho que percebi que sou mais um leitor do que um escritor.
Quanto às resenhas, que prefiro chamar de pitacos, escrevo mais para mim mesmo. São observações pessoais, longe de estruturas críticas, coisa bem impressionista, para ajudar a manter a memória daquele livro em especial.

3)
Entrevistador – Você costuma dizer que Santo Agostinho teve grande influência na sua vida intelectual. De minha parte, li apenas as Confissões. O que Santo Agostinho disse que te impressiona tanto?

Fábio – Santo Agostinho tem grande influência no Ocidente todo, tenhamos lido suas obras ou não. Está entranhado. Ele é o início do Ocidente. Meu interesse por Agostinho de Hipona se deu no colégio, Colégio Santo Agostinho, e pensei, adolescente, que, se eu estava num lugar que levava o nome desse cara com freis que eram da ordem que ele fundara, bom, eu teria de saber alguma coisa sobre ele, pois não? Mais do que as Confissões, foi Cidade de Deus que me pegou.
Lá ele tem um conceito bem interessante sobre a simultaneidade do tempo. Diz que o tempo dos homens é linear, cronológico; mas o tempo de Deus é simultâneo, pois Deus é um presente eterno: Nele o mais distante passado é o imediato presente, neste segundo, constantemente, e o mais longínquo futuro já se realiza nesse agora de Deus. Como os homens são imagem e semelhança de Deus, com Ele partilham algo de Sua natureza; a simultaneidade temporal de Deus está presente no homem pela memória. Ou seja: quando nós nos lembramos de um fato, da nossa infância, por exemplo, sentimos a alegria ou a dor ou o prazer daquele momento distante; e quando projetamos algo que desejamos no futuro, vivemos essa expectativa como se esse futuro estivesse realizado agora. Não sei se consegui ser claro, mas esse conceito me impressionou. Agostinho escreve isso no século V! Quase 1.500 anos antes da psicanálise e um pouco mais distante da física quântica. Usei esse conceito quando fiz o mestrado estudando novela de cavalaria. Melhor que qualquer teoria sociológica ou literária. Desvenda um tanto as nossas dores, alegrias, frustrações e nos identifica como indivíduos perante o mundo e a Criação.

4)
Entrevistador – A sua concepção política, hoje, é bastante conhecida, pelo menos das pessoas que, como eu, acompanham os seus posts. Você já foi, em dado momento da vida, ligado ao esquerdismo?

Fábio – Dizem que sou de direita, seja o que isso signifique. Não sou. Sou, digamos, conservador, o que está além e fora desse espectro esquerda-direita. Mas já fui de esquerda, sim, até meus 25, 26 anos, por aí. Esquerdismo é doença, não lembro quem disse isso, mas é fato: que nem sarampo e catapora, doença de infância intelectual. Depois, se o sujeito for sério e minimamente honesto, pica a mula, cai fora, execra as ideias de esquerda que só funcionam sob o totalitarismo.
O que acontece hoje aqui no Brasil me parece um tanto esquizofrênico. Estão se esbofeteando virtualmente pelo Lula e pelo Bolsonaro. É aquela coisa do sebastianismo ou, pior, a síndrome de ausência do pai. Querem alguém que mande. Brasileiro gosta de ser subserviente, de obedecer. É uma forma de se eximir das responsabilidades, enfim.

5)
Entrevistador – Todo mundo, hoje dia, sabe que Machado é o cara. Pergunto eu: na sua opinião, por que Machado é o cara? Se você fosse convidado a explicar por que se deve ler Machado, o que diria?

Fábio – Machado é só o maior escritor da língua portuguesa. Se o cara ler sua obra com atenção, aprende direitinho a escrever e a interpretar. O problema é que a maior parte dos professores não sabe ler ou não quer ler ou os dois.
Uma vez um colega pediu que eu desse umas aulas de redação para um aluno do último ano de Relações Internacionais. Escrevia mal. Não desenvolvia as ideias. Não sabia conceituar. O estilo era árido, chato, superficial. Apliquei o seguinte método: ele iria deixar seu TCC de lado e se dedicar à leitura dos contos de Machado; duas vezes por semana nós nos encontrávamos para discutir suas leituras. Tudo, até a pontuação de cada conto. Três meses, isso. Depois pedi para que o rapaz reescrevesse o trabalho. O orientador dele, esse meu colega, me perguntou: “Ulanin, o que você fez que o fulano está escrevendo bem e com clareza?”.
Pois é. Ler Machado nos oferece uma série de coisas: o estilo, o uso da palavra, a consciência da ironia, a crítica social, o estar presente frente à existência. Como todo grande escritor, aliás. Acho que foi Borges que disse alguma coisa sobre a perenidade dos grandes livros que se adequam perfeitamente a cada época. A Ilíada é a mesma e outra. Machado sempre será atual.

6)
Entrevistador – Nós assistimos recentemente a uma discussão muito acirrada envolvendo censura. O que você acha do assunto? Você concorda com censura a produções artísticas?

Fábio – Qualquer censura é uma barbárie. Tem esse negócio político – ou você é a favor do que eu penso ou é inimigo. O problema na exposição QueerMuseu foi que havia a apologia à identidade de gênero confessadamente voltada para crianças. No MAM o papo foi outro: até onde a mãe pode permitir a interação de seu filho com um homem nu?
Confesso que não consigo entender direito onde nós nos metemos. Pensar que temos de classificar exposições com faixas etárias. Olha só a loucura: tanto os defensores dessas manifestações artísticas quanto os seus críticos são autoritários. O povo à esquerda quer um “controle social da mídia”; o à direita deseja uma doutrinação “às avessas” nas escolas. Nem um nem outro desejam ideias livres e discussões. Bom, eu me coloco ao lado da “intolerância”, como dizem, em um único caso: a identidade de gênero ensinada para crianças. Pelo menos até que alguém prove – essa a palavra – que sexo é construção social. E isso não vai acontecer, pois é uma mentira que não se sustenta em nenhum cenário intelectual.

7)
Entrevistador – Fale do que você quiser. Olha! Tenho muito orgulho de ser seu amigo. Muito obrigado por ter aceito o convite para a entrevista.

Fábio – O que eu quiser? Gosto mesmo é de treta. O que escrevo no dia a dia é, no mais das vezes, provocação. Acho muito divertido, de verdade, ver o povo se estapeando nesse circo que é a rede social. O que vale, no duro, é conhecer um pessoal bom, escritores de primeira linha como o Murilo Mendes, não sei se você conhece.

UM PAPO COM OS PAPAS

UM PAPO COM OS PAPAS que acabaram de chegar aqui em casa, direto lá da Editora Ecclesiae.
papas

 

São João Paulo II e sua Teologia do Corpo, o amor humano no plano divino, obra central de sua teologia; e, junto com o Papa João Paulo I, As sete lâmpadas da santificação, catequeses sobre as virtudes teologais e cardeais.
Bento XVI traz seu Fé, Verdade, Tolerância, o cristianismo e as grandes religiões do mundo, além d’O Espírito da Música.
Tracey Rowland também chegou para explicar A Teologia do Papa Bento XVI.

ANO ZERO. Uma história de 1945

IAN BURUMA. Ano Zero, uma história de 1945  [São Paulo: Companhia das Letras, 2015.  Trad.: Paulo Geiger]

Livros sobre a II Guerra Mundial encontramos aos montes, sob os mais diversos pontos de vista. Há análises a respeito da ascensão do nazismo e a deflagração da guerra, como os três imensos vo011_AnoZerolumes de Richard J. Evans; há o estudo militar do conflito de Antony Beevor; há o ponto de vista de Churchill em suas Memórias da Segunda Guerra Mundial; há o livro, imenso e importantíssimo, A destruição dos judeus europeus, de Raul Hilberg; sem contar as inúmeras biografias e revisões históricas do período, além de alguns títulos sobre a guerra no Pacífico. Depois, encontramos livros sobre a Guerra Fria, aos montes e com os mais diversos matizes ideológicos. Sobre os anos imediatamente posteriores ao conflito de 1939-1945, quase nada.

Ian Buruma, nesse Ano zero, uma história de 1945, deslinda o período que vai dos meses anteriores à rendição alemã até o ano de 1946, oferecendo um panorama humano das ações cotidianas das pessoas comuns. Seu foco não é a política internacional ou os acordos firmados entre Estados – eles estão presentes na medida em que interferem nas decisões das populações, claro, no entanto seu interesse é analisar o como essas populações viviam no período de caos e destruição que se seguiu ao fim da guerra.

O que lemos é impressionante. Dividido em três partes [“Complexo de libertação”, “Removendo o entulho” e “Nunca mais”], o Autor toca nos sentimentos humanos, e muitas vezes sub-humanos, que se tornam comuns. Mulheres que se veem obrigadas a prostituir-se para sobreviver são as principais personagens do primeiro capítulo: primeiro, tornam-se amantes dos alemães que ocuparam seus países, depois, amantes dos soldados que vieram para “libertá-las”, muitas vezes em troca de chocolates ou cigarros que eram a moeda de troca no mercado negro. A prostituição era um meio de sobrevivência, mas o problema não é esse: o que acontece depois é que causa horror. Essas mulheres, defendidas e tratadas com compreensão nos anos terríveis de ocupação, acabam sendo condenadas como “traidoras da pátria”, humilhadas, julgadas e executadas. Se a prostituição alimentava suas famílias, agora é coisa indigna. Quem se entregou ao soldado inimigo é vista como inimiga e traidora.

Na verdade, esse julgamento tem uma face mais sombria. Não se trata de posicionamento ideológico. Soldados cometem atrocidades com as populações inimigas. O estupro cometido por franceses, americanos, ingleses, canadenses e russos eram comuns [os soldados russos tinham autorização de Stálin para “divertirem-se”: estupravam sequencialmente desde meninas de oito até velhas de 80 anos; ingleses “preferiam álcool”, como diz Buruma, de modo que sua violência era menor]. Mais do que isso: as forças armadas organizavam imensos bordéis para os soldados, com o uso de mão de obra local e incentivo dos governos. Havia campanhas oficiais para que as mulheres se tornassem “amigas dos soldados” e fossem “dançar” nos “salões de festas”. Isso ocorria do Ocidente ao Oriente. É um paradoxo. Ao mesmo tempo em que incentivam a prostituição como uma prêmio aos soldados, as mulheres são rebaixadas e condenadas.

É mais complexo, claro. O paradoxo relaciona-se com a psicologia daqueles soldados europeus que foram à guerra e voltaram para casa devastados. A vitória de franceses, holandeses, tchecos, poloneses, é uma vitória frustrada. Depois de anos nos campos de batalha – ou, pior, nos campos de concentração –, o retorno para o lar é algo estranho. Encontram mulheres cujo comportamento é radicalmente diferente daquele do pré-guerra: são mulheres que se viram obrigadas a trabalhar e sustentar suas famílias, são mulheres que buscavam uma solução para a solidão que sentiam, são mulheres que não sabiam se seus maridos estavam vivos, são mulheres que sofreram a guerra de outra forma. Depois de anos vivendo assim, sentem-se liberadas, capazes de assumir quaisquer posições antes reservadas apenas aos homens. A reação, então, é a de vingança.

Vingança é outro tema do livro. Não apenas contra as mulheres, mas contra toda e qualquer pessoa identificada como “inimiga”. Muitos alemães contrários ao nazismo, e que ajudaram perseguidos em suas cidades, foram mortos nos primeiros meses após o término da guerra. Grupos saíam armados nas ruas caçando inimigos – e qualquer um poderia ser identificado como tal: desde um inocente cujo fenótipo não era condizente com sua “raça” até o homem que usava uma roupa cujas cores eram do antigo inimigo. A vingança, sentimento humano gerado da frustração e da incapacidade de lidar com as perdas pessoais [não importando os motivos dessas perdas], chegou a ser incentivada. Há relatos cruéis, como o do comandante do grupo americano que libertou o campo de Bergen-Belsen, onde morreu Anne Frank: ao ver as centenas de cadáveres empilhados, simplesmente pegou os primeiros alemães que encontrou, cerca de 300, e os fuzilou a rajadas de metralhadora. Não eram soldados. Eram civis.

O problema crucial a ser enfrentado no primeiro momento foi o do deslocamento de milhões de pessoas para seus países de origem. Imensos campos de refugiados espalvam-se pela Europa. Escravizados pelos alemães por anos, famílias realocadas por causa do Lebensraum, libertos de campos de concentração, prisioneiros de guerra das mais diversas nacionalidades, judeus, todos vagando na tentativa de retornar aos seus lares. Mas não havia mais lar. Havia novas fronteiras, havia destroços, havia morte, havia guerra civil. Nem sempre esses homens perdidos, fora do espaço e do tempo, eram bem acolhidos. Se os soldados americanos, ao entrarem em Paris, foram saudados com um furor erótico pela população feminina, os soldados europeus e aqueles ex-prisioneiros, fragilizados, subnutridos, quase mortos, não tinham mais lugar. A guerra havia de certa forma extraído suas condições viris e sua capacidade de convivência, algo como “já está difícil de nos sustentarmos, como esperar que sustentemos esses farrapos humanos?”. Para variar, as principais vítimas dessa repulsa foram, mais uma vez, os judeus.

Há todo um capítulo a respeito dos judeus libertos dos campos. Os progroms continuaram, a culpa novamente lhes foi atribuída, o preconceito maneve-se. A imagem do judeu rico, mesmo frente àqueles corpos cadavéricos que se arrastavam pelas estradas, ainda persistia. Populações saqueavam o pouco que lhes restava; eram agredidos e roubados; eram expulsos das ruínas de suas casas. Até mesmo os saqueadores dos bens dos judeus corriam riscos: eram vistos como homens ricos graças aos saques. Nesse contexto que a ideia de se formar o Estado de Israel, existente desde o século XIX, ganha fôlego. Os conflitos que vemos hoje entre Israel e Palestina surge nesse momento, graças ao jogo-de-forças entre Inglaterra, pró-Palestina, e Estados Unidos, pró-Israel. Diga-se que os Estados Unidos apoiou a formação de uma nação judaica apenas por não desejarem acolher os milhões de judeus sobreviventes.

Há muito que dizer desse Ano zero. Buruma analisa e retrata todos os conflitos no Oriente, a Guerra no Pacífico e na China, e o que eles originaram. Russos invadindo o território japonês a noroeste da China e saqueando suas fábricas – desmontadas peça a peça e transportadas para a URSS; o estupro e assassinato de japonesas, chinesas, coreanas, indistintamente pelas forças de ocupação; o surgimento do mercado negro no Japão e das diversas máfias, formados por pilotos kamikaze do Imperador; os interesses coloniais franceses pela Indochina em confronto direto com o desejo de liberdade, o que veio a ser a Guerra do Vietnã. Esse breve panorama sobre o livro parece-me suficiente para mostrar a sua importância.

Pego-me, no entanto, pensando em nossa realidade mais imediata em nosso tempo. Vivemos um período estranho, de desejos de conflito ideológico, que, pelo menos no discurso de alguns, almeja a destruição do outro. Li muitas opiniões de pessoas que votaram em Bolsonaro, por exemplo, dizendo-se preparadas para “pegar em armas” para travar uma “guerra patriótica” contra o comunismo, sendo “comunista” toda e qualquer pessoa que não tenha votado em seu candidato. À esquerda, vi gente falando em resistir “com arma em punho” e “nas trincheiras” contra o “fascismo”, sendo “fascista” todo e qualquer um que não tenha votado em seu candidato. Os opostos são iguais, no fim e ao cabo.

Mas o horror é o desejo de violência. Freud analisa esse desejo pela violência em Mal-estar da civilização. A agressividade, afinal de contas, não passa de uma autoafirmação, ma tentativa de marcar seu território; e menosprezar o outro, rotulando-o como “inimigo”, é um processo de negação de sua própria fragilidade. Talvez isso explique tanto as ações nazistas quanto o desejo de vingança posterior à guerra. Acredito que explique o comportamento a que assisto hoje em nossa sociedade.