A SEGURANÇA DOS IMBECIS

NÃO CONSIGO DEIXAR de sentir horror. Saí das salas de aula em 2010. Havia seus problemas, claro, mas nunca enfrentei neuroses muito graves. Às vezes um ou outro aluno que “não concordava” com o que eu dizia, e ok, tudo bem, tentava mostrar que não era eu quem dizia, mas tal e tal autores que estudávamos.

LolitaHá pouco mais de um ano uma colega foi processada e demitida de uma universidade em que trabalhava há 30 anos, acusada de racismo. Seu crime: usar Gilberto Freyre em aula. Alunos de um certo “Coletivo Enegrecer” fizeram escândalo, sentaram o cacete, berraram, moveram mundos e fundos contra a professora. Aposto que nunca leram Freyre.
Ontem, num grupo de leitores de livros, comentaram o Lolita, de Nabokov. Apenas escrevi que era uma obra obrigatória, mas devia-se tomar cuidado para não cair na facilidade de ver nele um romance sobre pedofilia [o que não deixa de ser] e ver em Humbert-Humert um ser cruel e na jovenzinha Dolores a encarnação da inocência; Dolores, Lola, Lolita, é uma menina manipuladora e que sabe muito bem o que faz. Sem contar que HH conta sua história desde a prisão, não por acaso que o subtítulo do romance é “Uma confissão”. Foi o quanto bastou. Uma moça chamou-me de “pedófilo” e veio com o papo da inocência da infância etc., aquela coisa do Rousseau do Homem ser puro e a sociedade o corrompe. Bobagem.
Não adianta explicar o óbvio, que Lolita é um romance e deve ser lido como tal, descolado da realidade imediata. Não adianta dizer que esses leitores leem mal. Não conseguem mais distanciar a realidade da ficção, pois vivem em uma ficção confortável cheia dos preconceitos. Uma outra moça disse que “Lolita é um romance perigoso”. Encafifei com esse “perigoso”. Verdade que não chegou a defender a censura, mas está quase lá.
Não respondi, deu tédio. Teria de alinhar todas as obras “perigosas”, desde Aristófanes, passando por Madame Bovary e Oscar Wilde, sem contar os russos perigosos e as fogueiras nazistas. Teria de perguntar se ela não considerava a festinha funk também perigosa, com suas meninas de 12 anos [a idade de Lolita!] dançando sem calcinhas para transar com um sem-número de carinhas.
Acontece que me peguei pensando o que seria uma sala de aula hoje. Creio que seria acusado de “doutrinador agente do marxismo cultural” por usar o povo da Escola de Frankfurt; por outro lado, seria acusado do mesmo racismo de minha colega do parágrafo aí de cima por usar o mesmo Gilberto Freyre, ou de “machismo” por usar peças de Shakespeare [tem um movimento feminista forte, nos USA, que quer proibir Shakespeare nas universidades; tem outro, de naturebas que querem proibir Moby Dick]. Há uma farta distribuição de rótulos para todos os gostos, é só pegar o que mais lhe agrada para atacar quem te ofende.
Não é uma questão de “direita” ou de “esquerda”. A coisa passa longe da política. Os leitores estão rasos, superficiais e prendem-se aos seus próprios preconceitos, agarram-nos, apegam-se a eles, dormem de conchinha, dão-lhes beijos apaixonados: os preconceitos são suas segurança, pois um preconceito é a segurança do imbecil.
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2 comentários em “A SEGURANÇA DOS IMBECIS

  1. Com esta nova escola “sem partido” a coisa deve piorar muito.

    Eu lembro de você me contando que uma aluna sua, do curso de Letras, se recusou a ler “Memórias Póstumas de Brás Cubas” porque o livro era escrito por um defunto e o pastor não permitiria. Isso vai virar a norma, infelizmente…

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  2. Rapaz, o povo anda ensandecido. Falta repertório para qualquer leitura que vá além do óbvio ululante. Nenhum esforço para ir além do senso comum. Daí para confundir dialética com dialeto é um tirim de winchester. Tristes trópicos!!!

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