ANO ZERO. Uma história de 1945

IAN BURUMA. Ano Zero, uma história de 1945  [São Paulo: Companhia das Letras, 2015.  Trad.: Paulo Geiger]

Livros sobre a II Guerra Mundial encontramos aos montes, sob os mais diversos pontos de vista. Há análises a respeito da ascensão do nazismo e a deflagração da guerra, como os três imensos vo011_AnoZerolumes de Richard J. Evans; há o estudo militar do conflito de Antony Beevor; há o ponto de vista de Churchill em suas Memórias da Segunda Guerra Mundial; há o livro, imenso e importantíssimo, A destruição dos judeus europeus, de Raul Hilberg; sem contar as inúmeras biografias e revisões históricas do período, além de alguns títulos sobre a guerra no Pacífico. Depois, encontramos livros sobre a Guerra Fria, aos montes e com os mais diversos matizes ideológicos. Sobre os anos imediatamente posteriores ao conflito de 1939-1945, quase nada.

Ian Buruma, nesse Ano zero, uma história de 1945, deslinda o período que vai dos meses anteriores à rendição alemã até o ano de 1946, oferecendo um panorama humano das ações cotidianas das pessoas comuns. Seu foco não é a política internacional ou os acordos firmados entre Estados – eles estão presentes na medida em que interferem nas decisões das populações, claro, no entanto seu interesse é analisar o como essas populações viviam no período de caos e destruição que se seguiu ao fim da guerra.

O que lemos é impressionante. Dividido em três partes [“Complexo de libertação”, “Removendo o entulho” e “Nunca mais”], o Autor toca nos sentimentos humanos, e muitas vezes sub-humanos, que se tornam comuns. Mulheres que se veem obrigadas a prostituir-se para sobreviver são as principais personagens do primeiro capítulo: primeiro, tornam-se amantes dos alemães que ocuparam seus países, depois, amantes dos soldados que vieram para “libertá-las”, muitas vezes em troca de chocolates ou cigarros que eram a moeda de troca no mercado negro. A prostituição era um meio de sobrevivência, mas o problema não é esse: o que acontece depois é que causa horror. Essas mulheres, defendidas e tratadas com compreensão nos anos terríveis de ocupação, acabam sendo condenadas como “traidoras da pátria”, humilhadas, julgadas e executadas. Se a prostituição alimentava suas famílias, agora é coisa indigna. Quem se entregou ao soldado inimigo é vista como inimiga e traidora.

Na verdade, esse julgamento tem uma face mais sombria. Não se trata de posicionamento ideológico. Soldados cometem atrocidades com as populações inimigas. O estupro cometido por franceses, americanos, ingleses, canadenses e russos eram comuns [os soldados russos tinham autorização de Stálin para “divertirem-se”: estupravam sequencialmente desde meninas de oito até velhas de 80 anos; ingleses “preferiam álcool”, como diz Buruma, de modo que sua violência era menor]. Mais do que isso: as forças armadas organizavam imensos bordéis para os soldados, com o uso de mão de obra local e incentivo dos governos. Havia campanhas oficiais para que as mulheres se tornassem “amigas dos soldados” e fossem “dançar” nos “salões de festas”. Isso ocorria do Ocidente ao Oriente. É um paradoxo. Ao mesmo tempo em que incentivam a prostituição como uma prêmio aos soldados, as mulheres são rebaixadas e condenadas.

É mais complexo, claro. O paradoxo relaciona-se com a psicologia daqueles soldados europeus que foram à guerra e voltaram para casa devastados. A vitória de franceses, holandeses, tchecos, poloneses, é uma vitória frustrada. Depois de anos nos campos de batalha – ou, pior, nos campos de concentração –, o retorno para o lar é algo estranho. Encontram mulheres cujo comportamento é radicalmente diferente daquele do pré-guerra: são mulheres que se viram obrigadas a trabalhar e sustentar suas famílias, são mulheres que buscavam uma solução para a solidão que sentiam, são mulheres que não sabiam se seus maridos estavam vivos, são mulheres que sofreram a guerra de outra forma. Depois de anos vivendo assim, sentem-se liberadas, capazes de assumir quaisquer posições antes reservadas apenas aos homens. A reação, então, é a de vingança.

Vingança é outro tema do livro. Não apenas contra as mulheres, mas contra toda e qualquer pessoa identificada como “inimiga”. Muitos alemães contrários ao nazismo, e que ajudaram perseguidos em suas cidades, foram mortos nos primeiros meses após o término da guerra. Grupos saíam armados nas ruas caçando inimigos – e qualquer um poderia ser identificado como tal: desde um inocente cujo fenótipo não era condizente com sua “raça” até o homem que usava uma roupa cujas cores eram do antigo inimigo. A vingança, sentimento humano gerado da frustração e da incapacidade de lidar com as perdas pessoais [não importando os motivos dessas perdas], chegou a ser incentivada. Há relatos cruéis, como o do comandante do grupo americano que libertou o campo de Bergen-Belsen, onde morreu Anne Frank: ao ver as centenas de cadáveres empilhados, simplesmente pegou os primeiros alemães que encontrou, cerca de 300, e os fuzilou a rajadas de metralhadora. Não eram soldados. Eram civis.

O problema crucial a ser enfrentado no primeiro momento foi o do deslocamento de milhões de pessoas para seus países de origem. Imensos campos de refugiados espalvam-se pela Europa. Escravizados pelos alemães por anos, famílias realocadas por causa do Lebensraum, libertos de campos de concentração, prisioneiros de guerra das mais diversas nacionalidades, judeus, todos vagando na tentativa de retornar aos seus lares. Mas não havia mais lar. Havia novas fronteiras, havia destroços, havia morte, havia guerra civil. Nem sempre esses homens perdidos, fora do espaço e do tempo, eram bem acolhidos. Se os soldados americanos, ao entrarem em Paris, foram saudados com um furor erótico pela população feminina, os soldados europeus e aqueles ex-prisioneiros, fragilizados, subnutridos, quase mortos, não tinham mais lugar. A guerra havia de certa forma extraído suas condições viris e sua capacidade de convivência, algo como “já está difícil de nos sustentarmos, como esperar que sustentemos esses farrapos humanos?”. Para variar, as principais vítimas dessa repulsa foram, mais uma vez, os judeus.

Há todo um capítulo a respeito dos judeus libertos dos campos. Os progroms continuaram, a culpa novamente lhes foi atribuída, o preconceito maneve-se. A imagem do judeu rico, mesmo frente àqueles corpos cadavéricos que se arrastavam pelas estradas, ainda persistia. Populações saqueavam o pouco que lhes restava; eram agredidos e roubados; eram expulsos das ruínas de suas casas. Até mesmo os saqueadores dos bens dos judeus corriam riscos: eram vistos como homens ricos graças aos saques. Nesse contexto que a ideia de se formar o Estado de Israel, existente desde o século XIX, ganha fôlego. Os conflitos que vemos hoje entre Israel e Palestina surge nesse momento, graças ao jogo-de-forças entre Inglaterra, pró-Palestina, e Estados Unidos, pró-Israel. Diga-se que os Estados Unidos apoiou a formação de uma nação judaica apenas por não desejarem acolher os milhões de judeus sobreviventes.

Há muito que dizer desse Ano zero. Buruma analisa e retrata todos os conflitos no Oriente, a Guerra no Pacífico e na China, e o que eles originaram. Russos invadindo o território japonês a noroeste da China e saqueando suas fábricas – desmontadas peça a peça e transportadas para a URSS; o estupro e assassinato de japonesas, chinesas, coreanas, indistintamente pelas forças de ocupação; o surgimento do mercado negro no Japão e das diversas máfias, formados por pilotos kamikaze do Imperador; os interesses coloniais franceses pela Indochina em confronto direto com o desejo de liberdade, o que veio a ser a Guerra do Vietnã. Esse breve panorama sobre o livro parece-me suficiente para mostrar a sua importância.

Pego-me, no entanto, pensando em nossa realidade mais imediata em nosso tempo. Vivemos um período estranho, de desejos de conflito ideológico, que, pelo menos no discurso de alguns, almeja a destruição do outro. Li muitas opiniões de pessoas que votaram em Bolsonaro, por exemplo, dizendo-se preparadas para “pegar em armas” para travar uma “guerra patriótica” contra o comunismo, sendo “comunista” toda e qualquer pessoa que não tenha votado em seu candidato. À esquerda, vi gente falando em resistir “com arma em punho” e “nas trincheiras” contra o “fascismo”, sendo “fascista” todo e qualquer um que não tenha votado em seu candidato. Os opostos são iguais, no fim e ao cabo.

Mas o horror é o desejo de violência. Freud analisa esse desejo pela violência em Mal-estar da civilização. A agressividade, afinal de contas, não passa de uma autoafirmação, ma tentativa de marcar seu território; e menosprezar o outro, rotulando-o como “inimigo”, é um processo de negação de sua própria fragilidade. Talvez isso explique tanto as ações nazistas quanto o desejo de vingança posterior à guerra. Acredito que explique o comportamento a que assisto hoje em nossa sociedade.

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