ENTREVISTA COM O ESCRIBA

Há um ano o amigo Murilo Mendes fez essa entrevista comigo. Murilo é bom amigo e escritor de primeira qualidade. Vale a pena conhecer o que escreve e bater um papo: basta clicar aqui. Segue a entrevista:

Não sei mais como nos conhecemos. Um belo dia, éramos amigos na rede. Fábio impressiona pela quantidade de livros que leu. E isso é coisa que se percebe não apenas porque ele fala de livros, o que muita gente faz na internet, inclusive este cronista do sertão. Fábio mata a cobra e mostra a cobra morta. Tem quase duzentas resenhas de livros que leu ao longo do tempo, todas muito interessantes e originais. Ele já deu aulas, trabalhou com publicidade e, como me disse in box, “comete” alguns poemas e contos. Fábio gosta de uma graça. Uma prova? Perguntei se ele tinha gatos em casa. Ele me disse que tem mais de um. A última, Svetlana, sendo uma gata de cor preta, ele diz que entrou pelo sistema de cotas.
Pós graduado em literatura na PUC de Sampa, ele se diz do contra e é contra “inclusive contra quem é do contra”.
Fala aí, Fábio Ulanin.
E obrigadão pela entrevista.

1)
Entrevistador – Fabio, seu sobrenome. De onde vem o sobrenome? Seus antepassados eram de onde?

Fábio – São dois sobrenomes, ou eu queria que estivessem registrados os dois. Tenho o Ulanin, que é da família do meu pai, João. Meu avô, Kosma, era de uma vila na fronteira entre a Rússia e a Polônia. Não sei o nome da vila, mas a geografia lá no leste é uma zona danada: às vezes estava em território polaco, logo depois ia parar nas mãos dos russos. Minha avó, Elizaveta, era ucraniana. A Ucrânia é outro problema: a Rus, origem da Rússia, estava bem ali, então os russos sempre consideraram a Ucrânia parte essencial do seu Império desde os tempos de Pedro o Grande até hoje. Vó Eliza era camponesa. Vieram fugidos da Revolução. A vó Eliza fugiu por causa da fome, o Homolodor. Ela me contou que viu cenas de canibalismo quando criança.
A linha dos Kovalescki, por parte de mãe, era de poloneses, de Varsóvia e Cracóvia. Meu bisavô fugiu de lá, a Polônia uma ruína depois de tantas guerras. Diz a crônica familiar que minha trisavó excomungou meu bisavô no porto do rio Vístula. Há vários Kovalescki espalhados. Alguns foram para os USA, outros para o Sul do Brasil. Os nomes variam: Kowalescki, Kowalski, Kovaleski, Kovalscy, mas é uma única origem. Pesquisei um pouco as origens dos polacos. É controversa. Tem uns nobres antigos lá na Polônia, mas tem também uns judeus com o mesmo sobrenome, coisas do Leste europeu. Mas os Kovalescki mais importantes ainda são aquele imediato da USS Enterprise e o pinguim de Madagáscar.

2)
Entrevistador – Você é uma daquelas pessoas que passam a impressão de que já leram tudo. Suas resenhas são longas e muito bem feitas. Quando começou o interesse pela literatura. Você lia desde pequeno? Fale aí da sua paixão, a literatura.

Fábio – Li e leio bastante, menos do que gostaria. Leitura é um prazer, antes de obrigação, e sempre tentei mostrar isso para meus alunos, nos 20 anos de professor. Mas quando criança não gostava de ler. Achava as coisas da escola chatíssimas. Odiava Tistu, o menino do dedo verde, e ainda hoje consigo imaginar torturas terríveis que eu faria com esse moleque insuportável. João Ulanin trabalhava na Abril e sempre trazia gibis [Disney e Turma da Mônica] e coleções. Um dia ele largou em cima da mesa um livro, 20.000 Léguas Submarinas, da Coleção Grandes Aventuras. Ficou dias no mesmo lugar. Não me obrigou a ler, não disse nada, o velho João. Um dia, sem brincadeiras de rua, sem nada para fazer em casa, peguei o livro e li a primeira frase. Bastou. Li o bicho numa tarde. Depois li de novo. Depois de li de novo. Depois li de novo. Umas dez vezes seguidas. No outro dia, pai Ulanin chegou com uma caixa: 25 volumes, a coleção completa.
A leitura me acompanha todos os dias, nem que sejam poucas páginas. Leio de tudo, de best-seller aos clássicos, passando por filosofia, história, biografia. Hoje escrevo pouco, bem menos do que desejo, mas acho que percebi que sou mais um leitor do que um escritor.
Quanto às resenhas, que prefiro chamar de pitacos, escrevo mais para mim mesmo. São observações pessoais, longe de estruturas críticas, coisa bem impressionista, para ajudar a manter a memória daquele livro em especial.

3)
Entrevistador – Você costuma dizer que Santo Agostinho teve grande influência na sua vida intelectual. De minha parte, li apenas as Confissões. O que Santo Agostinho disse que te impressiona tanto?

Fábio – Santo Agostinho tem grande influência no Ocidente todo, tenhamos lido suas obras ou não. Está entranhado. Ele é o início do Ocidente. Meu interesse por Agostinho de Hipona se deu no colégio, Colégio Santo Agostinho, e pensei, adolescente, que, se eu estava num lugar que levava o nome desse cara com freis que eram da ordem que ele fundara, bom, eu teria de saber alguma coisa sobre ele, pois não? Mais do que as Confissões, foi Cidade de Deus que me pegou.
Lá ele tem um conceito bem interessante sobre a simultaneidade do tempo. Diz que o tempo dos homens é linear, cronológico; mas o tempo de Deus é simultâneo, pois Deus é um presente eterno: Nele o mais distante passado é o imediato presente, neste segundo, constantemente, e o mais longínquo futuro já se realiza nesse agora de Deus. Como os homens são imagem e semelhança de Deus, com Ele partilham algo de Sua natureza; a simultaneidade temporal de Deus está presente no homem pela memória. Ou seja: quando nós nos lembramos de um fato, da nossa infância, por exemplo, sentimos a alegria ou a dor ou o prazer daquele momento distante; e quando projetamos algo que desejamos no futuro, vivemos essa expectativa como se esse futuro estivesse realizado agora. Não sei se consegui ser claro, mas esse conceito me impressionou. Agostinho escreve isso no século V! Quase 1.500 anos antes da psicanálise e um pouco mais distante da física quântica. Usei esse conceito quando fiz o mestrado estudando novela de cavalaria. Melhor que qualquer teoria sociológica ou literária. Desvenda um tanto as nossas dores, alegrias, frustrações e nos identifica como indivíduos perante o mundo e a Criação.

4)
Entrevistador – A sua concepção política, hoje, é bastante conhecida, pelo menos das pessoas que, como eu, acompanham os seus posts. Você já foi, em dado momento da vida, ligado ao esquerdismo?

Fábio – Dizem que sou de direita, seja o que isso signifique. Não sou. Sou, digamos, conservador, o que está além e fora desse espectro esquerda-direita. Mas já fui de esquerda, sim, até meus 25, 26 anos, por aí. Esquerdismo é doença, não lembro quem disse isso, mas é fato: que nem sarampo e catapora, doença de infância intelectual. Depois, se o sujeito for sério e minimamente honesto, pica a mula, cai fora, execra as ideias de esquerda que só funcionam sob o totalitarismo.
O que acontece hoje aqui no Brasil me parece um tanto esquizofrênico. Estão se esbofeteando virtualmente pelo Lula e pelo Bolsonaro. É aquela coisa do sebastianismo ou, pior, a síndrome de ausência do pai. Querem alguém que mande. Brasileiro gosta de ser subserviente, de obedecer. É uma forma de se eximir das responsabilidades, enfim.

5)
Entrevistador – Todo mundo, hoje dia, sabe que Machado é o cara. Pergunto eu: na sua opinião, por que Machado é o cara? Se você fosse convidado a explicar por que se deve ler Machado, o que diria?

Fábio – Machado é só o maior escritor da língua portuguesa. Se o cara ler sua obra com atenção, aprende direitinho a escrever e a interpretar. O problema é que a maior parte dos professores não sabe ler ou não quer ler ou os dois.
Uma vez um colega pediu que eu desse umas aulas de redação para um aluno do último ano de Relações Internacionais. Escrevia mal. Não desenvolvia as ideias. Não sabia conceituar. O estilo era árido, chato, superficial. Apliquei o seguinte método: ele iria deixar seu TCC de lado e se dedicar à leitura dos contos de Machado; duas vezes por semana nós nos encontrávamos para discutir suas leituras. Tudo, até a pontuação de cada conto. Três meses, isso. Depois pedi para que o rapaz reescrevesse o trabalho. O orientador dele, esse meu colega, me perguntou: “Ulanin, o que você fez que o fulano está escrevendo bem e com clareza?”.
Pois é. Ler Machado nos oferece uma série de coisas: o estilo, o uso da palavra, a consciência da ironia, a crítica social, o estar presente frente à existência. Como todo grande escritor, aliás. Acho que foi Borges que disse alguma coisa sobre a perenidade dos grandes livros que se adequam perfeitamente a cada época. A Ilíada é a mesma e outra. Machado sempre será atual.

6)
Entrevistador – Nós assistimos recentemente a uma discussão muito acirrada envolvendo censura. O que você acha do assunto? Você concorda com censura a produções artísticas?

Fábio – Qualquer censura é uma barbárie. Tem esse negócio político – ou você é a favor do que eu penso ou é inimigo. O problema na exposição QueerMuseu foi que havia a apologia à identidade de gênero confessadamente voltada para crianças. No MAM o papo foi outro: até onde a mãe pode permitir a interação de seu filho com um homem nu?
Confesso que não consigo entender direito onde nós nos metemos. Pensar que temos de classificar exposições com faixas etárias. Olha só a loucura: tanto os defensores dessas manifestações artísticas quanto os seus críticos são autoritários. O povo à esquerda quer um “controle social da mídia”; o à direita deseja uma doutrinação “às avessas” nas escolas. Nem um nem outro desejam ideias livres e discussões. Bom, eu me coloco ao lado da “intolerância”, como dizem, em um único caso: a identidade de gênero ensinada para crianças. Pelo menos até que alguém prove – essa a palavra – que sexo é construção social. E isso não vai acontecer, pois é uma mentira que não se sustenta em nenhum cenário intelectual.

7)
Entrevistador – Fale do que você quiser. Olha! Tenho muito orgulho de ser seu amigo. Muito obrigado por ter aceito o convite para a entrevista.

Fábio – O que eu quiser? Gosto mesmo é de treta. O que escrevo no dia a dia é, no mais das vezes, provocação. Acho muito divertido, de verdade, ver o povo se estapeando nesse circo que é a rede social. O que vale, no duro, é conhecer um pessoal bom, escritores de primeira linha como o Murilo Mendes, não sei se você conhece.

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