DOSTOIÉVSKI NA RUA DO OUVIDOR

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“UMA CIRCULAR DO Departamento Nacional de Educação sobre o programa do concurso para as faculdades de direito, publicada duas semanas após a decretação do Estado Novo, enumerava as literaturas hispano-americanas, norte-americana, francesa, inglesa, alemã, italiana, espanhola, nórdica e russa. A primeira coisa a se notar é a inclusão desta entre as tradições literárias ocidentais. O programa relativo à literatura russa faz o seguinte resumo: ‘Causas do aparecimento tardio da literatura na Rússia. O folclore, riqueza e importância como fonte literária. O romance russo. Dostoiewsky’.”

É um trecho do excelente Dostoiévski na rua do Ouvidor, de Bruno Barreto Gomide. O que me faz matutar aqui com meus botões: não vi um único clássico no Enem desse ano. Vi bobagens cotidianas, o dialeto dos travestis, uma croniqueta sobre lésbicas, coisas cotidianas, mas nada de Literatura de Verdade, com L e V maiúsculos.

Acontece que nossos jovens não leem. Não leem porque seus pais não leem. Não leem porque seus professores não leem. São puro reflexo da imbecilização da educação – e de sua facilidade pois faculdade é a coisa mais fácil do mundo, eu sei, eu fiz uma e trabalhei em várias. Tive colegas, no mestrado, professores da rede pública, que morriam se tivessem de ler o que lhes era exigido. Em compensação, tive alunos que, ainda que tenham me xingado horrores, acabaram lendo Dostoiévski [um ou outro confessaram que acabaram gostando].

Pois é, la decadence mademoiselle. Nos anos 1930 um aluno de seus 17 anos tinha de conhecer tudo isso aí de cima para entrar numa faculdade. Hoje uma postagem de mais de sete linhas no Facebook é o horror dos horrores.

Faculdade não é para todo mundo. Como escreveu Paulo Francis, serve para criar elites e não para dar diploma para pé-rapado intelectual.

SOBRE FILMAR AULAS

Nunca permiti que filmassem minhas aulas. Abri exceção uma vez, permitindo gravação em áudio, por causa de um aluno cego que não conseguia fazer anotações. Filmagens nunca.

Explico: sou contratado para dar aquela aula específica. Preparo a aula, levo algumas horas, entro em sala e trato do tema por duas horas seguidas. Não vendi minha aula para ser reproduzida sei lá quantas vezes para quantas pessoas. Não assinei nenhum contrato de EaD com a universidade para que minha aula seja reproduzida à exaustão para quem quiser assistir. Se meu contrato de trabalho tivesse sido esse, as minhas aulas estariam disponíveis para os alunos matriculados no curso. Eu cobraria, ou tentaria cobrar, pela minha produção intelectual, uma espécie de direitos autorais, e pelo uso de imagem. Não é o caso.

O argumento “ah mas o aluno pode querer tirar dúvidas” não cola. Basta me procurar nos meus horários. Ou “e se o aluno faltar, como é que fica?”, minha resposta é simples: a obrigação do aluno é estar em sala de aula, não no jogo do Curintcha, não no botequim, não no escritório. Ele paga por aquela aula e pronto. Perdeu, vire-se.

“Pô, Ulanin, você é muito mercenário!”

Que seja. Vivo disso. Não fiz voto de pobreza, ainda que a escolha dessa profissão se aproxime muito disso.